por Ronaldo Lundgren.

[HAITI] Uma boa razão para você ter orgulho
Fui designado para comandar o Batalhão Brasileiro no Haiti. Era o ano de 2010, depois do terrível terremoto que vitimou mais de 200 mil pessoas.
Foram mais de 5 meses de preparação. A tropa era constituída por militares do Paraná e Santa Catarina. Mais de 1.200 homens e mulheres iriam passar seis meses no país caribenho.
Todo comandante tem seus momentos de solidão. Mesmo estando ao lado de tanta gente, três coisas não saíam de minha cabeça:
- representar bem o Brasil, honrando as tropas que me antecederam e que fizeram um trabalho extraordinário por aquele país;
- trazer todos os militares de volta ao Brasil. Infelizmente, o terremoto de 2010 vitimou 18 oficiais, sargentos, cabos e soldados; e
- deixar algo para os haitianos, além da sensação de segurança, de modo que todos do Batalhão pudessem responder à pergunta: “O que vocês fizeram lá?“.
Embora seja uma pergunta fácil de fazer, sua resposta costuma não ser bem compreendida por quem nunca foi militar. O que poderíamos fazer? O que mais poderia ser feito em apoio aos haitianos mais sofridos?
Este é o tema do post. Em poucas palavras e imagens, vou lhe apresentar uma boa razão para você ter orgulho de seus soldados brasileiros.
Quarteirão Limpo
Porto Príncipe (Haiti) – Em 30 de janeiro de 2011, o Batalhão Brasileiro de Força de Paz (BRABATT 1) iniciou a ação comunitária denominada “Quarteirão Limpo”.
O trabalho realizado naquele dia era apenas a etapa final de uma série de medidas executadas nos cinco meses anteriores.
A localidade “La Difference”, na região de Cité Soleil, uma das partes mais sensíveis da área operacional de responsabilidade (AOR) do Batalhão, foi quem recebeu toda a atenção.
A ação foi uma iniciativa do BRABATT 1, em parceria com a Seção de Redução da Violência Comunitária da MINUSTAH (CVR). MINUSTAH é a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti.
O principal foco era a revitalização de 04 quarteirões, incluindo a pintura das áreas externas das casas, a instalação de iluminação pública e a limpeza das adjacências de cada quarteirão.
Mais do que uma ação, tratava-se de um conceito que deveria ter um efeito multiplicador para as demais áreas de Cité Soleil.
Dessa forma, esperava-se desenvolver o espírito de cooperação, a cidadania e as noções de limpeza urbana, contribuindo para um ambiente seguro e estável na comunidade.

O Projeto
A ideia do projeto é proporcionar um pouco de dignidade para as famílias residentes em áreas sem infraestrutura.
Para isso, uma sequência de ações são tomadas, preparando aquelas pessoas para receberem a atenção merecida.
Depois, essas pessoas deveriam continuar com as próprias pernas na caminhada para fortalecer a dignidade de cada uma delas.
O ponto inicial consiste em definir o quarteirão que receberá o projeto. Para isso, é realizado um levantamento das pessoas que nele residem, cadastrando-as e confirmando se são voluntárias para participarem das ações futuras.
Em seguida, com apoio das lideranças locais, são definidos 8 locais que irão receber postes de iluminação pública, à base de energia solar.
Tais postes, montados no próprio Haiti, possuem tomadas localizadas ao alcance das pessoas, de modo que podem ser utilizadas para carregamento de baterias de celular.
Depois, é definido o final-de-semana para a realização do mutirão de pequenos reparos nas moradias, pintura das fachadas, varrição e coleta de lixo. Tudo é feito pelo próprio morador, voluntariamente.
Cabe aos soldados fornecerem o material para pintura (tintas, pincéis, etc.) e os caminhões para retirada do lixo recolhido, conduzindo-o a um aterro em local afastado.
A dona da casa é quem manda
Um detalhe importante: as cores das casas são definidas pela dona da casa. São disponibilizadas várias opções para que elas possam escolher. Aliás, todo o projeto é conduzido tendo a mulher como a autoridade decisora. Afinal, é ela que sabe o que é melhor para sua família.
Por um período de três meses, moradores do quarteirão são contratados para manterem a limpeza da área. Para o serviço, recebem um salário mensal equivalente a 100 dólares (valor superior ao salário mínimo do Haiti).
A parceria do BRABATT 1 com a Seção de Redução da Violência Comunitária assegura que os recursos financeiros são a cargo da ONU. O dinheiro permite comprar todo material de construção e também pagar o salário das 20 pessoas contratadas para a limpeza pública.
Segurança não se faz só com soldados
Não se leva segurança a uma área onde as pessoas se vêem abandonadas pelo poder público. Elas próprias, por extinto de sobrevivência, estabelecem suas próprias rotinas e normas, sem esperarem o dia em que as autoridades encontrem tempo para olharem para elas.
O projeto, que começou após o terremoto de 2010, que vitimou cerca de 200 mil pessoas, continua em pleno vigor, com atualizações inseridas ao longo desses anos.
Oito quarteirões são beneficiados por ano. Pode-se estimar que algo em torno de trinta mil pessoas receberam a atenção da tropa.
Soldados brasileiros que estão lá para fazerem mais do que apenas patrulharem as ruas e imporem as medidas necessárias para a segurança.
Esse é um perfeito exemplo de como o binômio liderança e empreendedorismo social melhora a qualidade de vida de toda uma comunidade. (ver o artigo Empreendedorismo e Liderança)
A solidão do comando
Para não deixar sem resposta as outras duas coisas que me acompanhavam, com a ajuda de Deus conseguimos trazer de volta para suas famílias todos os 1.200 militares. Eles suplantaram inúmeras dificuldades: furacão, epidemia de cólera, pleito eleitoral, trânsito caótico e segurança pública.
Também conseguimos honrar os contingentes que nos antecederam. O Brasil é respeitado no cumprimento de sua missão. Com o apoio recebido do Exército, Marinha e Ministério da Defesa, a missão foi cumprida. Nossos soldados são excelentes profissionais. Sinto-me honrado por tê-los comandado.
Hora de agir!
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