Auftragstaktik para organizações civis

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por Ronaldo Lundgren.

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O termo germânico Auftragstaktik se refere a uma filosofia surgida na Prússia do século XIX, que traduz uma maneira particular de conduzir e controlar as ações em combate. Nela é dada ao executor das missões ampla liberdade de ação, que resulta no exercício efetivo de uma iniciativa disciplinada e limitada pela intenção dos comandantes.

Todos concordam que guerra é uma das mais críticas atividades desenvolvidas pelo homem. Um sem número de variáveis interagem a todo momento. Condicionantes políticas, econômicas e diplomáticas se contrapõem a questões humanas, ambientais e culturais.

A guerra tem a capacidade de, simultaneamente, afetar vários atores. Nações, organismos internacionais, famílias e até indivíduos isolados. Afeta também, os militares que participam do conflito; seus familiares e amigos que, mesmo distantes, acompanham o desenrolar dos acontecimentos sofrem com a incerteza do que está por vir.

A duplicidade de sentimentos que acometem os militares em combate que, para cumprirem a missão recebida, expõem-se ao risco de morte a qualquer momento e ao risco de ter que matar seu inimigo, ressaltam a importância da liderança e da iniciativa.

Para o cumprimento da missão – depois que o combate é iniciado e o comandante-maior se encontra afastado da tropa, sem poder dar orientações para cada novidade que apareça – algumas decisões precisam ser tomadas por subordinados que estão na linha de frente, em contato com o inimigo. Esses subordinados se baseiam apenas no “quadro final pintado” pelo comandante antes de eles saírem de suas bases para o combate.

O exército prussiano, pensando em uma maneira de dar liberdade de decisão àqueles subordinados, sem contrariar o planejamento da batalha, criou o conceito Auftragstaktik. Com isso, “é garantido aos subordinados decidir acerca da melhor e mais adequada maneira de cumprir as tarefas impostas, já que não haverá dúvidas da parte deles acerca do propósito maior da operação”.

Conceito é a formulação de uma ideia por meio de palavras. Por trás da estranha palavra Auftragstaktik, de difícil pronunciação, existe um arcabouço enorme de capacitações necessárias a cada uma das pessoas que se dispõem a praticá-la. Para citar algumas: trabalho em equipe; disciplina; delegação de atribuições; comunicação; autoconfiança; conhecimento profissional; e liderança.

Engana-se quem pensa que a criação e a implementação do conceito  Auftragstaktik ocorreu de forma natural. Ele é fruto de uma enorme pressão, iniciada após a Prússia haver perdido as batalhas de Jena e Auerstedt contra os franceses. Depois das derrotas para Napoleão e o país ter ficado à beira de um colapso, a pressão por mudanças teve a dimensão suficiente para permitir a implementação de reformas que, diga-se de passagem, eram desejadas por jovens oficiais que percebiam as vulnerabilidades do exército, mas não tinham poder de mando suficiente para promovê-las.

Com as reformas adotadas, iniciou-se a preparação e o treinamento das tropas, capacitando-as a exercerem a iniciativa das ações e concedendo a “liberdade necessária para agirem por julgamento próprio, conforme considerado o mais adequado em determinado momento, dentro de uma diretriz muito bem elaborada, que definiria de maneira clara e objetiva o estado final desejado para a missão.”

Para destacar um importante ponto da preparação das tropas, foram conduzidos treinamentos para que os combatentes prussianos passassem a pensar e agir de maneira independente, sendo capazes de analisar corretamente cada situação que surgisse, explorando as consequentes oportunidades de maneira decisiva e resoluta. Isso não significava abandonar o planejamento inicial à primeira adversidade que aparecesse. Reconhecer o momento e as circunstâncias oportunas para mudar constitui a verdadeira arte de comandar e liderar.

Nas atividades de treinamento, chegava-se ao ponto de serem criadas situações tais que haveria a necessidade de o subordinado “descumprir” a ordem anteriormente passada, para que, dessa forma, pudesse atingir o propósito maior da operação.

Após a Primeira Guerra Mundial, com as restrições impostas pelo Tratado de Versalhes sobre a Alemanha, o Auftragstaktik continuou sendo utilizado, adaptando-se à nova situação. Para se contrapor ao Tratado, que limitou o efetivo de soldados a cem mil combatentes, o exército alemão passou a treinar os seus líderes um nível acima da posição que cada um ocupava. Assim, foi formada uma massa crítica suficiente para permitir aumentar, rapidamente, os efetivos do exército com a qualidade necessária.

O Auftragstaktik é composto por quatro elementos essenciais – obediência, proficiência, independência de ação e autoestima. De fato, Auftragstaktik é uma cultura organizacional. O conceito descreve uma cultura dentro da profissão das armas. Dessa forma, não se pode acordar em uma manhã e decidir que se irá praticar a transmissão de ordens baseando-se no Auftragstaktik. As culturas se desenvolvem ao longo do tempo.

Ao contrário do que possa parecer, atuar segundo o conceito do Auftragstaktik permite manter “o comandante ciente de tudo que estiver acontecendo, proporcionando-lhe discernir em elevado grau de exatidão até que momento a liberdade de ação dada ao subordinado poderá ser mantida, salvaguardando o estado do material, as vidas humanas envolvidas e o próprio cumprimento da missão.”

Nunca diga às pessoas como fazer as coisas! Diga-lhes somente o que deve ser feito e elas o surpreenderão com sua engenhosidade! (General Patton).

De forma resumida, a tabela abaixo lista as principais caraterísticas percebidas no conceito de Auftragstaktik.

Para o Comandante Para os Subordinados
Define o quê fazer, deixando margem para o subordinado definir como fazer. Tem liberdade para modificar o planejamento inicial.
Detalha apenas o essencial. Atua dentro do “grande quadro”.
Admite falhas e erros cometidos pelos subordinados, desde que não contrariem os limites impostos. Responsabilidade e compromisso no processo de cumprimento da missão.
Fornece os recursos necessários para o cumprimento da missão. Aplica os recursos recebidos.
Recebe informações da linha de frente. Informa o comandante.
Confiança no subordinado. Confiança no comandante.
Pratica o conceito diariamente, evitando o microgerenciamento. Pratica o conceito diariamente, assumindo riscos calculados.
Não delega responsabilidades exclusivas suas. Assume como suas as responsabilidades que lhe forem delegadas.
Evita passar soluções pré-formatadas. Usando suas habilidades, decide e age de acordo com a situação.
Exerce a liderança de forma descentralizada. Exerce a iniciativa, aproveitando as oportunidades apresentadas.
Interfere na missão quando as medidas adotadas pelos subordinados fogem ao definido como quadro final desejado. Corrige suas ações para se adequar ao quadro final desejado.
Transmite sua intenção de comando. Conhece a intenção de comando dos dois níveis superiores.

Implicações da tecnologia das informações

Se na época do surgimento e implantação da Auftragstaktik os recursos tecnológicos não possibilitavam o acompanhamento ao vivo do que estava se passando na linha de frente, nos dias atuais tal possibilidade existe. Questiona-se, então: ainda é válido utilizar esse conceito? É conveniente incentivar que os subordinados pratiquem a iniciativa, chegando ao ponto de tomarem decisões sem submetê-las a uma aprovação prévia dos comandos superiores?

O tamanho dos exércitos, a melhora da capacidade de armas, a dispersão de tropas no terreno, bem como a diversidade de ações acontecendo ao mesmo tempo, em ambientes urbanos e rurais, acompanhados de perto por uma mídia atuante, por organizações não-governamentais e por organismos internacionais,  não permitem ao comandante estar presente e ciente de tudo o que se passa. Não existe mais aquela figura do super-homem que tudo vê e tudo sabe. As responsabilidades de um comandante tornaram-se demasiadamente grandes e ficou extremamente complicado para um único homem controlar eficazmente tudo que se passa na sua área de responsabilidade.

Apesar de todo o avanço tecnológico e ao contrário do que muitos militares e civis podem pensar, o fator humano e a liderança em combate permanecerão como as bases para se obter o sucesso em conflitos vindouros de qualquer natureza.

Auftragstaktik para organizações civis

Esse conceito materializa uma verdadeira filosofia capaz de conduzir as relações interpessoais em qualquer organização. É um método de gerenciamento com aplicação viável inclusive fora do ambiente militar, com elevada perspectiva de sucesso. Para isso, tem que se trabalhar na cultura da organização.

Características como delegação de responsabilidade, liberdade de ação, cooperação, flexibilidade e, sobretudo, confiança mútua entre todos os participantes do processo, com destaque para chefes e chefiados, são pilares básicos para a utilização da Aufragstaktik, os quais, bem compreendidos e empregados, garantirão o sucesso da aplicação dessa filosofia em quaisquer situações.

Não resta dúvidas da importância da liderança para a sua implementação. Isso é coisa para líder. A liderança funciona como “combustível capaz de fazer com que as pessoas maximizem suas qualidades e superem suas deficiências, alcançando limites antes não imaginados, que assegurarão uma maior probabilidade de sucesso das ações empreendidas.”

Caso considere que sua organização não esteja preparada para uma mudança dessa magnitude, procure certificar-se junto aos funcionários dos níveis intermediários. Talvez, ouvi-los com atenção, evite ter que mudar sob pressão externa, tal qual aconteceu com o exército prussiano após a derrota para Napoleão.


Este post baseou-se do trabalho do Maj Inf ANDRÉ LUIZ DE SOUZA DIAS – “A Missão-Comando, sua inserção e aplicabilidade no Exército Brasileiro” – Dissertação apresentada à Escola de Comando e Estado-Maior do Exército como requisito para obtenção do título de Mestre em Ciências Militares, no ano de 2013.

Por Ronaldo Lundgren

Possui graduação pela Academia Militar das Agulhas Negras; é Mestre em Estudos Estratégicos pelo US Army War College; e Doutor em Ciências Militares pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército.

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