Os brasileiros esquecidos

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por Ronaldo Lundgren.

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Quem são os brasileiros esquecidos?

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estima que a população do Brasil ultrapassou a marca dos 205 milhões de habitantes. Somos o quarto país mais populoso do mundo. Nossa economia, apesar dos percalços políticos, está entre as 10 maiores.

Somos um povo de desiguais. Seja por diferenças econômicas, sociais ou culturais, seja por questões de gênero, raça ou até local de nascimento.

No passado, já nos chamamos de “BelÍndia” – um país que possui ilhas desenvolvidas como a Bélgica, cercadas por áreas carentes como as existentes na Índia.

Essa desigualdade tem criado um grande número de brasileiros esquecidos pelas autoridades e pela própria população. Quem são eles? A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2014 destaca os principais grupos de brasileiros esquecidos.

Vejamos quem são.

Brasileiros vítimas da desigualdade

O economista da Universidade de Quilmes Germán Herrera Bartis assinala que é necessário distinguir entre pobreza e desigualdade. “A pobreza se vincula com a renda per capita de uma sociedade. A desigualdade com a distribuição”.

O método mais utilizado para verificar a desigualdade social em um país é através do índice de Gini.

Artigo publicado no jornal O Globo informa que a desigualdade no Brasil caiu em 2014 pelo décimo ano seguido. O índice de Gini, que mede a concentração de renda no trabalho, caiu de 0,495 em 2013 para 0,490 em 2014.

O índice varia entre zero e um: quanto mais perto de zero, menor é a desigualdade. Em 2004, esse índice era de 0,545. Entre 2004 e 2014, o recuo na desigualdade foi de 10,09%.

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Estudo da Receita Federal do Brasil

A despeito dessa melhora, o Banco Mundial, em pesquisa de dezembro de 2015, mostra que os primeiros cinco países no ranking da desigualdade são africanos – seguidos por cinco latino-americanos.

Entre os 14 mais desiguais a nível global figuram Honduras (6º), Colômbia (7º), Brasil (8º), Guatemala (9º), Panamá (10º) e Chile (14º).

Coerente com o estudo do Banco Mundial, um estudo realizado com base em dados da Receita Federal mostra que a desigualdade social no Brasil é pior do que se acreditava. Dados das declarações de imposto de renda divulgados pela Receita Federal indicam que as 71 mil pessoas mais ricas concentram quase 22% da riqueza brasileira.

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Brasileiros sem registro

Matéria de Luciana Nunes Leal, publicada na revista Exame.com, destaca que levantamento do IBGE mostra que 5,9 milhões de domicílios de baixa renda (renda mensal de até meio salário mínimo por pessoa) não foram registrados no Cadastro Único para participar de programas sociais.

Isso ocorre por três razões:

  • falta de iniciativa dos moradores;
  • porque as famílias tentaram acesso, mas não foram entrevistadas; ou
  • por desconhecimento da existência desse e de outros programas sociais federais.

O Cadastro Único é o instrumento do governo federal, em parceria com Estados e municípios, que tenta identificar, selecionar e incluir famílias pobres em programas sociais. É por meio desse cadastro que famílias têm acesso a benefícios como o Bolsa Família e a Tarifa Social de Energia Elétrica.

Em muitos casos, a falta de documento é um entrave para pessoas que buscam benefícios sociais. Em mais de 480 mil mil domicílios nenhum morador conhecia o Cadastro Único ou qualquer outro programa social federal.

Brasileiros analfabetos

os brasileiros esquecidosA taxa de analfabetismo entre brasileiros com 15 anos ou mais em 2014 foi estimada em 8,3% (13,2 milhões de pessoas).

De acordo com Ernesto Faria, coordenador de projetos da Fundação Lemann, os dados de analfabetismo podem não ser exatos. “Não temos controle da consistência desses números, já que a pergunta da Pnad é autodeclaratória”, diz.

“É possível que a situação seja mais grave. As pessoas que participam da pesquisa podem só ter algum pequeno domínio de leitura, mas não se declarararem analfabetas”, completa.

Brasileiros sem casa própria

O número de moradias próprias no Brasil passou de 74,4% para 73,7%, uma queda de 0,6 ponto porcentual, entre 2013 e 2014, mostrou a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), divulgada nesta sexta-feira, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em paralelo, houve um aumento de 0,6 ponto porcentual no número de domicílios alugados no país: de 17,9% para 18,5%.os brasileiros esquecidos

No geral, o número de domicílios particulares, que incluem próprios, alugados e cedidos, foi estimado em 67 milhões, um aumento de 2,9% (1,9 milhão de domicílios) sobre o ano anterior. Considerando a condição de ocupação no ano passado, 73,7% eram próprios, 18,5% eram alugados e 7,4%, cedidos.

Brasileiros com internet

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Parece contradição falar de acesso à internet. Porém, a internet e as redes sociais “deram voz” a quem se acha esquecido. Segundo o IBGE, mais de 55% da população com mais de 10 anos tem acesso à internet.

Essas pessoas têm a possibilidade de se expressarem. Ainda mais quando o smartphone se tornou o principal meio de acessar a rede mundial.

Conclusão

O conjunto de brasileiros esquecidos, mas com acesso à rede mundial de computadores, começa a participar de forma efetiva na política eleitoral do país.

Dados da justiça eleitoral mostram que cerca de 30% dos eleitores brasileiros não se sentem representados por quem está ocupando cargos eletivos.

Para o cientista político Aldo Fornazieri, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, a combinação de duas crises resultou no alto número de votos inválidos. “Nem os políticos nem os partidos deram respostas aos cidadãos sobre a crise da corrupção e nem sobre a crise do estado que não funciona“, diz Fornazieri.

“O desgaste era previsível, já que a maioria da população considera que os políticos são corruptos e também não conseguem promover os benefícios e os direitos que os cidadãos necessitam”, diz.

Segundo o cientista político Marco Antonio Carvalho Teixeira, “a impressão do eleitor é de que a política não pode mais ser consertada por políticos. O eleitor quer um tipo de moralidade que eles julgam só encontrar fora da política”, diz.

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Por Ronaldo Lundgren

Possui graduação pela Academia Militar das Agulhas Negras; é Mestre em Estudos Estratégicos pelo US Army War College; e Doutor em Ciências Militares pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército.

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