por Ronaldo Lundgren.

Quem foi Delmiro Gouveia – Um breve resumo
Este resumo é obra de Rebecca Fontes, que escreveu a A História de Delmiro Gouveia – O Industrial que Revolucionou o Sertão.
Os primeiros passos
Em meados do século XIX, nascia na fazenda Boa Vista, em Ipu, diocese de Sobral, a 291 km de Fortaleza, Delmiro Gouveia. O menino, filho do cearense Delmiro Porfirio de Farias e da pernambucana Leonila Flora da Cruz Gouveia, veio ao mundo no dia 5 de junho de 1863 para ser o pioneiro da industrialização do Nordeste.

Foi o primeiro empresário a empregar a energia hidráulica da queda do Angiquinho, na cachoeira de Paulo Afonso, para colocar em funcionamento as máquinas de sua indústria – a Companhia Agro-Fabril Mercantil, no Recife. O feito histórico ocorreu no dia 26 de janeiro de 1913.
No ano seguinte, Gouveia inaugurou sua fábrica de linhas que, com as marcas Estrela (nacional) e Barrilejo (estrangeira), passou a dominar o mercado brasileiro, conseguindo também forte atuação nas praças argentina, chilena e peruana, desbancando os produtos similares estrangeiros. A expansão continuou até atingir a Bolívia, a colônia inglesa de Barbados, as Antilhas e a América do Norte.

Ainda no mesmo ano (1914), o empresário iniciou a construção de estradas para a circulação de riquezas até Vila da Pedra (AL), atual Delmiro Gouveia, onde residia, findando por abrir 520 km de vias carroçáveis. Com isso, também foi o pioneiro na introdução do automóvel no sertão.
Desafios é pra se enfrentar
Mas até chegar à condição de industrial de sucesso, Gouveia enfrentou muitos desafios e inimigos. A história rumo ao sucesso começa com a mudança de sua família do Ceará, em 1868, para Pernambuco.
De bilheteiro na estação do trem urbano de Olinda, passando por despachante de barcaças, Gouveia começa, aos 20 anos, a se interessar pela compra de peles de cabras e ovelhas para exportação, servindo de intermediário entre produtores de couro e comerciantes estrangeiros. Em 1883, casa-se com Anunciada Cândida de Melo Falcão, a Iaiá.
De empregado a patrão
Em 1886, passa a trabalhar por conta própria e por comissão – para o imigrante sueco Herman Theodor Lundgren (Casas Pernambucanas) e para outras empresas especializadas nesse comércio, como a Levy & Cia. -, estabelecendo-se como negociante de couros. Tornou-se, 11 anos depois, o Rei das Peles. Acabou por assumir, em 1897, a presidência da Associação Comercial de Pernambuco.
Dois anos depois, à frente da Usina Beltrão, de refino e embalagem de açúcar, implanta no Recife o que hoje seria chamado de centro de diversões. Constrói um mercado modelo sem similar no Brasil.
O projeto, denominado Mercado Coelho Cintra, inaugurado a 7 de setembro de 1899, foi o primeiro do Recife a utilizar luz elétrica. Incluía carrossel, retreta, teatro, regatas, hotel, bares e velódromo. Com preços baixos, o Mercado incomodou a concorrência, gerando inimigos poderosos, como o prefeito Esmeraldino Bandeira e o todo poderoso da política pernambucana, o presidente do Senado Federal e vice-presidente da República, Francisco de Assis Rosa e Silva.
No ano seguinte, seus inimigos políticos incendeiam o complexo e Gouveia é jurado de morte pelos oligarcas da família Rosa e Silva (rosistas). No ano seguinte, 1901, perseguido, foge para a Europa.
Mudança para Alagoas
Já separado da mulher, em 1902, o empresário rapta e volta para o Brasil com a adolescente Carmela Eulina do Amaral Gusmão. Ela era filha do governador de Pernambuco do período 1899-1900, o desembargador Sigismundo Antônio Gonçalves, um rosista de destaque. Delmiro se estabelece em Alagoas.
Quando Gouveia chegou a Pedra, a 280 km de Maceió, em 1903, havia ali pouco mais de cinco casebres em torno de um terminal da ferrovia que unia Piranhas a Petrolândia (AL), pela qual circulava um trem por semana. Ele contava então com 40 anos. Em 1904, nascem três filhos da união com Eulina.
Buscando conhecimento
Delmiro Gouveia viajou diversas vezes à Europa e aos Estados Unidos. Viu de perto os efeitos revolucionários que a utilização da energia elétrica tivera na indústria.
Quando conheceu o distrito da Pedra, sua proximidade da cachoeira de Paulo Afonso e as possibilidades de explorar racionalmente toda aquela região, teve a idéia de realizar ali um grande projeto. Assim, em 1909 o empreendedor dá início aos estudos para a utilização econômica da cachoeira de Paulo Afonso, com aproveitamento parcial de capitais e know-how estrangeiros.
O interesse estava voltado ao abastecimento de energia elétrica para funcionamento das máquinas importadas para a Companhia Agro-Fabril Mercantil. Com a indústria inaugurada em 1914, o distrito passou a contar com uma população de cerca de 5 mil pessoas.
A antiga Delmiro
As residências eram servidas de luz elétrica, água corrente e esgotos. Havia oito escolas, sendo duas profissionais. Dali partiam cinco estradas de rodagem e as terras em redor, beneficiadas pela irrigação, produziam algodão, mandioca, feijão, milho e arroz. Havia criação de gado zebu e holandês e estavam sendo realizadas experiências com novos cruzamentos.

A região de Pedra, na confluência de quatro estados, servida por ferrovia e banhada pelo São Francisco, funcionava como corredor de todo comércio do sertão. Tropas de burros pertencentes à firma Iona e Cia., com sede em Maceió, traziam peles e couros do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Bahia e Sergipe. Em Pedra, elas eram tratadas e enfardadas. Seguiam de trem até Piranhas. Desciam o São Francisco até Penedo e por mar chegavam a Maceió, de onde eram exportadas.
Em pouco tempo, o empresário recuperou a fortuna (perdida quando fugiu do Brasil) e o título de Rei das Peles. A firma – com dois sócios italianos, Lionelo Iona e Guido Ferrário – chegou a possuir 200 burros de carga.
Três anos depois da inauguração da fábrica, isolado na cidade que ajudou a construir, o pioneiro da industrialização do Nordeste foi assassinado a bala, no dia 10 de outubro. Morreu aos 54 anos de idade, em seu chalet, sob circunstâncias misteriosas e nunca esclarecidas.
Liderança de Delmiro Gouveia
O fato de ter nascido de família simples não serviu de desistímulo a Delmiro. Ao contrário, contribuiu para valorizar suas conquistas ao longo da vida. Realizou no comércio e na indústria empreendimentos inovadores. Envolveu-se em acirradas disputas e conflitos. Encarnou um tipo singular de homem de negócios, onde se articulam atributos como destemor, ousadia e autoritarismo.
De sua vida, destacam-se algumas características típicas aos líderes e empreendedores. Vejamos a liderança de Delmiro Gouveia:
Vontade de aprender
Nos diversos trabalhos que exerceu (bilheteiro de estação de trem; despachante de barcaças; comerciante de peles), procurou aprender cada nuance das relações comerciais e industriais com empresários de sucesso para quem trabalhou.
Manter-se atualizado
As viagens que realizou serviram para conhecer novidades e tendências que ainda não haviam chegado ao Brasil. Identificada a oportunidade, procurava implementá-las.
Visionário
Possuía a habilidade de atrair a atenção para as suas ideias inovadoras, angariando recursos para financiar esses empreendimentos. Teria como atributos um espírito inovador, curiosidade, ousadia e capacidade de enxergar tendências.
Captação e retenção de talentos
Entre suas habilidades, destacam-se as de montar equipes e de organizar empreendimentos. O perfil delineado revela Delmiro como um visionário, um executor insaciável, um líder e um administrador competente.
Coragem moral e física
Homem de pulso e coragem – capaz de grandes embates. Na visão de vários autores teria enfrentado a prepotência das oligarquias estaduais, a fúria de trustes internacionais e a violência dos coronéis.
Resiliência
Entendida como a combinação de fatores que propiciam ao ser humano condições para enfrentar e superar problemas e adversidades. Vemos que Delmiro reunia um conjunto de fatores individuais que lhe garantiam a autoconfiança necessária para prosseguir na jornada que acreditava ser a melhor.
Capacidade de influenciar pessoas
Seja pela persuasão (inclusive via promoção de seus empreendimentos junto a pessoas-chaves como políticos e jornalistas e através de propaganda paga na imprensa), seja pela intransigência e autoritarismo.
Existe uma vasta produção intelectual sobre Delmiro Gouveia. Em 2007, o ensaio intitulado “Ousadia no Nordeste: a saga empreendedora de Delmiro Gouveia”, de autoria de Davi Roberto Bandeira da Silva, traça o perfil empreendedor de Delmiro. Nele é possível identificar um conjunto de características de seu temperamento, do tipo de liderança que exerceu no seu meio e do seu modo de organizar e gerir seus negócios.
