por Ronaldo Lundgren.

O Fórum de Ciência e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) realizou um encontro para debater os primeiros 100 dias do governo Dilma. Após as considerações apresentadas pelos dez palestrantes, foi possível concluir o seguinte:
Falta liderança política no Brasil.
O debate transcorreu, a despeito da paralisação dos funcionários da UFRJ, no dia 14 de maio. Foram abordados temas de economia, saúde, política, movimentos sociais e o papel atual da esquerda no Brasil.
Todos os palestrantes se declararam de esquerda. O auditório estava repleto, com mais de 150 alunos, professores e outras pessoas interessadas no tema.
Veja as considerações mais significativas que foram expostas:
| “A academia deve reconhecer o erro em ter se calado por medo de criticar o PT.” |
| “Está havendo uma paralisia institucional e decisória no governo.” |
| “Foi o ex-Presidente Lula quem decidiu pelo ajuste fiscal, para evitar o processo de impeachment da Presidente Dilma.” |
| “A Operação Lava-jato, a perda da governabilidade, a fragilização do PT, a perda do apoio político da população e o ajuste fiscal acuaram a esquerda brasileira.” |
| “A esquerda social, constituída por movimentos das periferias que saíram às ruas em 2013, não consegue se estruturar.” |
| “Está havendo um desmonte do SUS, orquestrado pelos ‘sanitaristas de negócios’ do PT.” |
| “Lula e o PT preferiram ficar ao lado das corporações de saúde privadas, mantendo relações de amizade por interesse com José Seripieri Junior, dono da Qualicorp.” |
| “A política social do PT está vinculada à financeirização. Ao mesmo tempo que estimula o consumo das classes menos favorecidas, mantém juros altos e uma política tributária favorável aos ricos.” |
| “As elites econômicas não têm do que reclamar desses 12 anos de governo.” |
| “A elite brasileira é golpista.” |
| “Quando algum acadêmico faz críticas ao governo do PT sofre um intenso ‘patrulhamento’, chegando a cercear futuros posicionamentos contrários ao partido.” |
| “A esquerda abandonou a classe média, está isolada e perdeu espaço para a direita.” |
| “Com o avanço da direita, a democracia representativa está ameaçada.” |
| “A transição democrática, iniciada após a ditadura militar, está esgotada.” |
| “O modelo esquerdista adotado na América do Sul está esgotado.” |
| “Não existe projeto para o Brasil.” |
| “O PT se esgotou.” |

Os pontos apresentados são sintomas da falta de liderança política no Brasil. Não me refiro à liderança imediata, de visão curta, que busca permanecer na posição que conquistou a qualquer custo. Valendo até cometer o crime de “estelionato eleitoral”, como um dos palestrantes comentou.
Quando olhamos para imagens de indivíduos que hoje ocupam o centro do palco do teatro político nacional, podemos nos perguntar: esses aí são realmente líderes?
O líder político, no entender de Max Weber, deve:
ser capaz de fazer-se seguir; conseguir vocalizar um sentimento mais amplo e difuso; e colocar-se à frente desse sentimento, espelhando em si a imagem de seus seguidores.
O líder político vocaliza um projeto histórico e de grupo, muito além de um projeto meramente pessoal. Por isso, o líder essencialmente político se difere do líder meramente popular: o líder político conduz a algum lugar, ao objetivo que está alhures, mesmo não empolgando (ainda que possa, sim, também empolgar).
Já o líder popular essencialmente empolga, agita, representa, mas, não necessariamente saberá aonde chegar. Pode facilmente ficar pelo caminho (o sentido de direção pode lhe faltar).

Temos acompanhado e sentido os graves efeitos de uma liderança política que tem como principal projeto permanecer no poder, a qualquer custo.
O objetivo central de qualquer indivíduo é a felicidade; o papel do líder é dar vazão e viabilidade a esse objetivo. O líder ajudará a encaminhar e realizar esse projeto. O fará por meio de habilidades próprias, específicas, através das virtudes que possui e pratica.
A articulação é mesmo seu habitat natural; sua capacidade de elaborar e/ou vocalizar propostas é muito relevante, mas ainda mais importante é sua habilidade de, por meio do diálogo e da persuasão, construir consensos e ou estratégias políticas de poder. Alianças construídas com base em ideias comuns, não compradas por meio da corrupção.
Tem sempre em mente o projeto e sabe o rumo, intui o caminho, coloca-se à frente do processo.
Diferencia-se muito mais pela sabedoria, pela sagacidade, pela prudência, comedimento e pela enorme capacidade de leitura das circunstâncias; conhece tão bem o potencial de seu grupo, como a natureza de suas limitações.
Segundo Pierre Bourdieu, o líder está sempre correndo o risco de perder a confiança de seus liderados. Como o capital político depende da crença dos outros, a posição de quem o possui é vulnerável a suspeitas e ameaças.
Os inúmeros casos ocorridos no país, alguns já com decisões judiciais transitadas em julgado, mostram que as “suspeitas” de Bourdieu já se confirmaram. A sociedade brasileira já não confia nos seus políticos.
Novas lideranças políticas precisam surgir. Em vários níveis: nos bairros, cidades, estados e país. A academia acredita que está fazendo a sua parte, ao apontar problemas e soluções.
E você, o que está fazendo? Deixe seu comentário e compartilhe com seus amigos.
Referências: Notas e reflexões sobre “Liderança Política”: contribuição para delimitação de um campo de estudo. Carlos Melo, da PUC-SP.

Muito boa esta iniciativa da UFRJ, mais especificamente da Profa Lena Lavinas! Parabéns!!
A academia precisa de mais encontros e debates como este! E, infelizmente, a grande mensagem sobre ” os 100 dias de solidão do governo Dilma” eh que estamos sem liderança politica! Que isto sirva para os jovens, e todos nós refletirmos mais sobre nossos papéis na sociedade, e não soh ficarmos batendo panelas..
Agora vamos esperar o debate dos 200 dias…
Obrigado pelo comentário. A reunião de pessoas de bem pode fazer a diferença no Brasil.