Felicidade anacrônica

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por Ana Rita Guerra.

felicidade anacrônica

Este artigo foi publicado, primeiramente, no Diário de Notícias.

“A ficção científica está a tornar-se fato científico”, declarou Gerd Leonhard, prevendo que os filhos dos nossos filhos nunca aprenderão a conduzir um carro e irão recusar-se a estudar outras línguas, porque os computadores farão tradução em tempo real. O futuro, disse ele, já não é uma extensão do presente. Já nada é linear. Até a era da disrupção trazida por empresas como a Uber acabou; agora, trata-se de construir novas coisas. Surgirão novas oportunidades, e outras estarão perdidas para sempre.

Aquelas projeções que apontam para que os robôs eliminem milhões de empregos nas próximas décadas são assustadoras, e provavelmente estão certas.

… os robôs não vão roubar os nossos empregos, mas sim as nossas tarefas.

No entanto, Leonhard tem uma visão diferente deste problema. Diz que os robôs não vão roubar os nossos empregos, mas sim as nossas tarefas. “Tudo o que puder ser digitalizado ou automatizado, sê-lo-á”, declarou.

Os computadores não conseguem entender a ineficiência humana, e essa é a chave para encarar o que se irá passar nos próximos anos: a ideia de tornar os humanos em máquinas eficientes é contranatural e as empresas que abordarem assim os seus recursos humanos vão espetar-se no cimento.

Carga horário de trabalho reduzida

Leonhard acredita que passaremos a trabalhar muito menos, talvez um par de horas por dia, e poderemos dedicar-nos a outras iniciativas de valor acrescentado.

“Tudo o que não possa ser digitalizado ou automatizado vai tornar-se muito mais valioso.” A modificação que ele antevê é brutal: como é que vamos reorganizar a sociedade para dias de trabalho tão pequenos? Como é que vamos redistribuir salários?

“Tecnologia não é aquilo que procuramos. Procuramos algo com uma ferramenta, não a ferramenta em si.” A tecnologia é uma ferramenta e acredito que, por si só, não é boa nem má.

O papel da liderança

Leonhard é um otimista e acredita que esta transformação levará a mais efeitos positivos do que negativos. Para isso, adverte, vamos precisar de líderes mundiais capazes de trabalhar em conjunto e definir regras universais e rigorosamente defendidas.

Se for possível a programação genética, quais são as regras? Se a inteligência artificial estará em todo o lado, quem irá controlá-la? Se plataformas como Google e Facebook detêm as nossas informações pessoais, como teremos garantias de privacidade?

É verdade que as histórias de ficção sobre máquinas que um dia decidem exterminar a humanidade partem de um pressuposto errado: o motivo.

Os computadores não terão qualquer motivo para causar um holocausto na Terra. O perigo, diz Leonhard, não é que as máquinas venham para nos matar, é que nos tornemos como elas, que façamos um outsourcing do nosso pensamento.

A felicidade

“Estamos a libertar poderes enormes. A solução é decidir o que fazer com eles”, disse. Mas aquilo que devemos todos ter em conta quando olhamos para a tecnologia que nos engole e o futuro que nos reserva, é isto: a felicidade não pode ser automatizada. Nunca haverá substituto artificial para ela.

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Categorizado como Liderança

Por Ronaldo Lundgren

Possui graduação pela Academia Militar das Agulhas Negras; é Mestre em Estudos Estratégicos pelo US Army War College; e Doutor em Ciências Militares pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército.

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