O papel da liderança na pesquisa científica

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por Ronaldo Lundgren.

Revolucao Cientifica

A inovação tem sido apresentada como garantia de sucesso para uma organização. Existe um movimento nas empresas que estimula a busca de produtos e processos inovadores. Os seus líderes ficam perscrutando o mercado, tentando antecipar tendências que coloquem a empresa na dianteira. Parcerias com universidades e institutos de pesquisa são criadas, na tentativa de intercambiar o conhecimento existente na empresa e aquele dos cientistas.

Como a liderança de uma empresa deve se posicionar ao ser solicitada a investir recursos em pesquisas que prometem entregar o tipo de inovação desejado? Qual o papel da liderança na pesquisa científica?

O presente post irá abordar alguns pontos do trabalho do físico e filósofo americano Thomas Kuhn, que escreveu o livro “A Estrutura das Revoluções Científicas”. Entendendo esses pontos, a liderança disporá de mais alguns critérios para decidir em qual pesquisa científica deverá aplicar os recursos disponíveis.Investir em Pesquisa Cientifia

Para se entender a metodologia científica proposta por Thomas Kuhn é necessário compreender os conceitos de paradigma, de ciência normal, de ciência extraordinária e de revolução científica.

Paradigma deve ser entendido como uma macroteoria, um marco ou perspectiva que é aceita de forma geral por toda a comunidade científica (conjunto de cientistas que compartilham um mesmo paradigma e realizam a mesma atividade científica) e a partir do qual se realiza a atividade científica, cujo objetivo é esclarecer as possíveis falhas do paradigma ou extrair todas as suas consequências.

O sucesso de um paradigma está no fato de ele ser identificado como uma “promessa de sucesso”, permitindo que cientistas se debrucem em problemas que o paradigma possui, na busca em completar as lacunas nele existentes.

O paradigma não se atém à teoria científica que ele explica. Atrelado a ele estão princípios filosóficos, uma concepção metodológica, leis e procedimentos técnicos que orientem a solução dos problemas que são levantados.

ciência normal é o período durante o qual se desenvolve uma atividade científica baseada num paradigma. Esta fase ocupa a maior parte da comunidade científica, consistindo em trabalhar para mostrar ou pôr à prova a solidez do paradigma no qual se baseia.

Vale destacar que Kuhn considera que a pesquisa realizada pela “ciência normal” produz pequenos resultados, não havendo o “interesse em produzir grandes novidades”. Se algum projeto foge a essa normalidade de margem estreita, resultando em algo maior do que a comunidade científica espera, é considerado como uma pesquisa fracassada, atribuindo-se a responsabilidade do insucesso ao cientista que conduziu o projeto.

Apesar da situação anteriormente descrita, cientistas continuam a se dedicar ao trabalho de resolver esses problemas. O que os motiva, segundo Kuhn, é a “maneira de alcançar” o resultado e não o resultado em si mesmo – que pode ser até detalhadamente antecipado – “resolver um problema da pesquisa normal é alcançar o antecipado de uma nova maneira”. Os caminhos percorridos pelos cientistas são verdadeiros “quebra-cabeças”, exigindo habilidades instrumentais, conceituais e matemáticas para resolver os problemas pesquisados. O paradigma adquirido pela comunidade científica tem consigo critérios para a escolha de problemas que serão pesquisados pelos membros da própria comunidade. Problemas que estejam fora dessa caixa são rejeitados. A ciência normal assegura a acumulação do conhecimento científico.

Porém, em determinadas ocasiões, o paradigma não é capaz de resolver todos os problemas, que podem persistir ao longo de anos ou séculos inclusive, e neste caso o paradigma gradualmente é posto em cheque, e começa-se a considerar se é o marco mais adequado para a resolução de problemas ou se deve ser abandonado. Então é quando se estabelece uma crise.

O surgimento de um novo paradigma raramente ocorre durante os períodos de ciência normal. Thomas Kuhn entende que quando cientistas se dão conta de uma anomalia, ou seja, quando passam a reconhecer fatos da natureza que contrariam o paradigma que governa a ciência normal, dá-se o início a uma exploração científica dessa área.

A este período crítico, Kuhn dá o nome de ciência extraordinária. Durante esse período, são desenvolvidas teorias especulativas e desarticuladas que sugerem caminhos a serem seguidos por outros cientistas. Essa revolução só encerra quando um novo paradigma for estabelecido. A partir dele, o processo recomeça, deixando a ciência normal seguir o seu curso. A ciência extraordinária, então, é o tempo em que se criam novos paradigmas que competem entre si tentando impor-se como o enfoque mais adequado.

Produz uma revolução científica quando um dos novos paradigmas substitui ao paradigma tradicional. A cada revolução o ciclo inicia de novo e o paradigma que foi instaurado dá origem a um novo processo de ciência normal.

Qual o papel da liderança na pesquisa científica?

Recursos são sempre escassos. Cabe à liderança decidir em qual pesquisa aplicá-los. O método proposto por Kuhn pode fazer parte dos critérios que a empresa adota para decidir onde investir.


KUHN, T. S. (1962/1970). “A Estrutura das Revoluções Científicas”. São Paulo: Ed. Perspectiva, 1987.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Thomas_Kuhn

Por Ronaldo Lundgren

Possui graduação pela Academia Militar das Agulhas Negras; é Mestre em Estudos Estratégicos pelo US Army War College; e Doutor em Ciências Militares pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército.

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