Em que universitários acreditam

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por Ronaldo Lundgren.

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Em que universitários acreditam

Na primeira aula de um semestre pós-greve universitária, o professor perguntou aos seus alunos:

– “Em quê você acredita?”

Foi uma pergunta para fazer pensar. O professor não esperou pelas respostas. Na semana seguinte, no entanto, a primeira atividade da turma foi redigir em um pedaço de papel 5 crenças que cada aluno, individualmente, possui. Não era preciso se identificar. Cerca de 15 minutos depois, o professor reuniu os papéis e prosseguiu na aula.

Uma aluna quis saber o motivo daquela enquete. Na explicação, o professor falou de família, de civilização ocidental, de diversidade.

O resultado das 5 crenças mais votadas está tabelado abaixo:

Crença %
Deus 79,2
Amor 43,1
Ciência 38,9
Esforço pessoal 33,4
Família 15,3

Que conclusões se pode tirar do levantamento realizado?

Em que universitários acreditam?

Antes de prosseguir, vale destacar que a pesquisa e a sua análise não foram realizadas com o rigor técnico que estudiosos do comportamento humano normalmente requerem, a fim de considerarem a pesquisa como científica. No entanto, os dados obtidos – talvez inéditos no Brasil – merecem ser compartilhados com todos que se interessam pelo tema liderança.

Um pouco sobre liderança

Liderança é a capacidade de influenciar pessoas para atingirem um objetivo comum ao grupo. A liderança pode ser aprendida. Ela não é apenas para aqueles que nascem com o dom. A forma mais simples de se aprender liderança pode ser resumida pela conjugação dos verbos SER – SABER – FAZER.

O verbo Ser diz respeito às características pessoais do líder, que devem corresponder às expectativas do grupo de liderados. Uma das primeiras providências daquele que quer aprender liderança é se autoconhecer. Para isso, o líder deve conhecer suas próprias crenças, bem como aquelas do seu grupo.

Crença em um Ser superior

A crença em um “ser superior” (uma força que governa o universo, um Deus) foi indicada por quase 80% dos universitários. Acreditar em Deus é muito positivo. Mostra que o grupo tem fé e, mais importante, reconhece que algumas coisas fogem à capacidade humana.

Segundo o filósofo William Craig, Deus “é a melhor explicação para a existência de deveres e valores morais objetivos no mundo. Com isso, quero dizer valores e deveres que existem independentemente da opinião humana”. William Craig afirma que a crença em Deus ajuda a dar uma fundação para valores morais, propósito de vida e esperança para o futuro.

Crença no amor

Crer no “amor” demonstra que, cerca de 43% dos universitários, não se contentam em esperar que a felicidade venha bater em sua porta. O verbo amar é um verbo de voz ativa, ou seja, o sujeito pratica a ação expressa pelo verbo.

Como afirma o jornalista Ivan Martins, “A vida exige destemor e desapego. Em algum momento temos de arriscar, saltar no escuro, avançar sem certeza do que vai pela frente. Sobretudo no amor. Se a gente pensa demais, hesita demais, pondera demais, não acontece. As oportunidades passam, a vida passa, sem que a gente se comprometa.”

Crença na ciência

Parece contraditório: uma turma que tanto acredita em Deus, também se fia na ciência. Quase 40% dos alunos diz crer que o homem pode tornar a vida melhor, com mais qualidade. E o desenvolvimento científico tem contribuído nessa direção. Ainda não temos todas as respostas para o que acontece na natureza. Talvez nunca venhamos a tê-las. Mas, é inequívoco que conseguimos entender e explicar fenômenos que antes eram tidos como desejo do criador.

A palavra ciência é derivada de scientia, uma tradução latina para o grego episteme, ambas significando conhecimento. Para o físico Guilherme Santos da Silva, “A ciência é um empreendimento e um esforço coletivo humano para compreender o universo, a natureza e o próprio ser humano”.

Enquanto a educação não puder dotar os cidadãos com o mínimo aceitável de conhecimento científico permanecerá a exploração e a exclusão de uma vasta maioria por alguns poucos manipuladores. A escola, é claro, deve ser a primeira frente de batalha. Este processo é lento mas é o único com solidez e sustentabilidade.

Crença no próprio esforço pessoal

Acreditar que seu próprio esforço pessoal é a fonte de energia que lhe move é magnífico. Cerca de 1/3 dos universitários afirmam que não se limitam a apenas desejar algo. Eles sabem que é necessário agirem. Precisam reunir suas energias, utilizar suas capacidades, incrementar suas redes de relacionamento para conseguirem aquilo que almejam.

Crença na família

Reconhecer na família uma importância para a vida é significativo. Embora o percentual de 15,3% possa ser considerado relativamente baixo, refletindo novos tipos de arranjos familiares na sociedade, vale olhar esse número pelo lado “cheio do copo”.

Para a educadora Ana Maria da Silva Fortes Aguiar, é “notório que nos últimos tempos uma das mudanças mais significativas se constata na maneira como a família atualmente se encontra organizada. Não existe apenas aquele modelo de família constituída de pai, mãe e filhos. Hoje, existem famílias dentro de famílias, com separações, novos casamentos, mas independente do arranjo familiar, nenhuma instituição muda abandonando por completo o velho.

A mudança é gestada num processo de conscientização, sendo a reflexão a ferramenta de luta para novas opções e escolhas”. Apesar das fissuras encontradas na instituição família, existe uma base de consideráveis 15% que acredita na sua importância, podendo servir como propagadora desse valor para aqueles que vivenciam uma outra realidade.

Perfil tentativo do universitário

Podemos tentar descrever o perfil do universitário, tomando por base suas crenças, da seguinte maneira:

São jovens que reconhecem não saberem e não poderem tudo, pois acreditam em um Deus que rege o universo, servindo-lhes como ajuda para complementar as faltas dos valores transmitidos por uma família estruturada. A crença na força pessoal e no amor que afirmam possuir, servem de energia para aproveitar os avanços que a ciência disponibiliza para a melhoria da qualidade de vida das pessoas.

Autor: Ronaldo Lundgren

Possui graduação pela Academia Militar das Agulhas Negras; é Mestre em Estudos Estratégicos pelo US Army War College; e Doutor em Ciências Militares pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército.

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