Talentos não abandonam desafios. Abandonam sistemas desorganizados.

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Talentos não abandonam desafios. Abandonam sistemas desorganizados.

Por Ronaldo Lundgren

Toda empresa conhece aquela pessoa que sempre salva o projeto no último minuto.

É o profissional que resolve problemas urgentes, encontra atalhos improváveis, corrige erros que ninguém percebeu e impede que o cliente descubra que algo deu errado.

No início, esse comportamento costuma ser celebrado.

Chamam de comprometimento, espírito de dono ou capacidade de trabalhar sob pressão.

Mas existe uma pergunta desconfortável que poucos líderes fazem:

por que o mesmo incêndio continua acontecendo repetidamente?

O maior perigo para uma organização não é o erro isolado.

É a sua normalização.

Quando apagar incêndios vira modelo de gestão

Em algumas empresas, o improviso deixa de ser exceção e se transforma em método.

Processos incompletos, responsabilidades pouco claras, retrabalho constante e urgências permanentes passam a fazer parte da rotina.

Nesse ambiente, o papel da liderança muda silenciosamente.

O líder deixa de construir direção, desenvolver pessoas e melhorar processos para dedicar a maior parte do tempo a administrar crises previsíveis.

A organização começa a confundir resiliência com tolerância à desorganização.

E isso cobra um preço elevado.

O custo invisível do erro sistêmico

Quando falhas estruturais deixam de ser tratadas em sua origem, o impacto não aparece apenas nos indicadores operacionais.

Ele aparece nas pessoas.

Primeiro surge o retrabalho.

Depois vem a perda de previsibilidade.

Em seguida aparecem a fadiga mental, a sensação de injustiça e a percepção de que os mesmos problemas continuarão existindo independentemente do esforço individual.

É nesse momento que muitos profissionais começam a se desconectar emocionalmente da organização.

Os melhores talentos geralmente aceitam pressão.

Aceitam desafios.

Aceitam mudanças constantes.

O que dificilmente aceitam é a repetição infinita dos mesmos erros.

O mito do heroísmo organizacional

Existe uma armadilha particularmente perigosa em ambientes desorganizados: a valorização do heroísmo.

O profissional que vira noites para salvar um projeto é promovido.

A equipe que trabalha um fim de semana inteiro para corrigir uma falha recebe reconhecimento público.

O problema é que, muitas vezes, ninguém investiga por que aquele esforço extraordinário precisou existir.

Quando apagar incêndios vira competência valorizada, alguém deixou de investir em prevenção.

Organizações maduras não premiam apenas quem resolve crises.

Premiam principalmente quem impede que elas aconteçam.

O papel da liderança ética

Liderança ética não significa apenas agir corretamente com pessoas.

Significa também assumir responsabilidade pelos sistemas que produzem os resultados da organização.

Isso exige coragem para enfrentar problemas estruturais em vez de apenas administrar consequências.

Algumas perguntas ajudam nesse processo:

  • Estamos corrigindo sintomas ou eliminando causas?
  • Quais problemas aparecem repetidamente em nossa operação?
  • Que tipo de comportamento estamos recompensando?
  • Nossos processos ajudam as pessoas a performar ou dependem constantemente de esforço extraordinário?

Líderes que fazem essas perguntas deixam de gerenciar emergências e começam a construir organizações mais saudáveis.

Como romper o ciclo

Superar a cultura do improviso exige disciplina organizacional.

Alguns princípios são fundamentais:

  • Investigar sistematicamente as causas-raiz dos problemas;
  • Documentar aprendizados após falhas relevantes;
  • Melhorar continuamente processos e fluxos de trabalho;
  • Reduzir dependências excessivas de indivíduos específicos;
  • Valorizar prevenção tanto quanto valorizamos execução.

Errar continuará fazendo parte do aprendizado.

A diferença está em decidir se o erro será um professor ou apenas um visitante recorrente.

Reflexão final

Empresas não perdem seus melhores profissionais apenas por excesso de trabalho.

Frequentemente, perdem porque essas pessoas percebem que ninguém pretende resolver problemas que todos já conhecem.

Talentos raramente abandonam desafios.

Eles abandonam ambientes onde a desorganização se tornou cultura e onde o esforço extraordinário passou a substituir a gestão competente.

No fim, talvez a pergunta mais importante para qualquer líder seja:

estamos construindo sistemas que permitem às pessoas fazerem um excelente trabalho ou estamos apenas encontrando formas cada vez mais sofisticadas de sobreviver ao caos?

Referências sugeridas

  • DEMING, W. Edwards. Out of the Crisis.
  • SENGE, Peter. A Quinta Disciplina.
  • EDMONDSON, Amy. The Fearless Organization.
  • LIKER, Jeffrey. O Modelo Toyota.
  • KAHNEMAN, Daniel. Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar.
publicado
Categorizado como Liderança

Por Ronaldo Lundgren

Possui graduação pela Academia Militar das Agulhas Negras; é Mestre em Estudos Estratégicos pelo US Army War College; e Doutor em Ciências Militares pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército.

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