por Alda Andrade(*)
Intolerância está em toda parte!
“As leis, por si mesmas, não conseguem assegurar liberdade de expressão; para que cada homem exponha seus pontos de vista sem sofrer penalidades deve haver espírito de tolerância em toda a população.” (Albert Einstein, ( 1879 - 1955)
A intolerância tem como base o não suportar e não sustentar uma situação ou pessoa. É o não exercer a paciência, a longanimidade e o amor
“A arte, um dos grandes valores da vida, deve ensinar aos homens: humildade, tolerância, sabedoria e magnanimidade.” ( W. Somerset Maughan )
Ela é um ato de depreciar o indivíduo ou pessoa por causa de suas orientações políticas, religiosas, sexuais, etc. Embora não se constitua crime em todos os casos, certamente se aproxima desta circunstância. Ao longo do tempo, a história revela que na humanidade tivemos inúmeros casos onde uma atitude intolerante levou a verdadeiras tragédias.
Em certas ocasiões, a intolerância pode ser revestida de formas perigosas, como a discriminação racial. No entanto, o perigoso se evidencia quando essas atitudes se promovem no Estado. Como foi no Nazismo, na primeira metade do século XX, levando à morte milhares de Judeus, ou no apartheid sul-africano vigente até o ano de 1922, são claros exemplos onde o racismo não era tolerado, mas justificado e promovido pelas leis.
Na Europa durante os séculos XVI e XVII, houve casos extremos em relação ao aspecto religioso onde podemos citar guerras, declaradas ou não, com destaque para a denominada Guerra Santa. Também destacamos a perseguição realizada pela União Soviética àqueles que professavam um credo religioso.
Destacamos como outra expressão de intolerância o Sexismo, que é sem dúvida a que tem uma visão depreciativa do sexo oposto e alguma de suas características, ignorando o papel complementar que tem a natureza feminina e masculina.
As atitudes de intolerância na atualidade mais extremas, como o racismo e o sexismo, são reprovadas abertamente. Porém, estas outras atitudes costumam se manifestar de um modo velado, podendo se revestir em formas de deboche ou desqualificação.
“Aprendi o silêncio com os faladores, a tolerância com os intolerantes, a bondade com os maldosos; e, por estranho que pareça, sou grato a esses professores”. (Khalil Gibran)
A discriminação
Quando um ato de discriminação é endossado ou ignorado por alguém, ele está no fundo, conspirando contra si mesmo, porque de uma forma ou de outra, em algum momento e lugar poderá ser considerando “diferente”. Passando, também, a ser desumanizado.
É no reconhecimento das diferenças que reside a essência do conceito de igualdade, que pressupõe a aceitação dos outros como elas são. Sem diversidade não há humanidade.
A heterogeneidade humana, no decorrer dos anos tem sido o principal motivo para o surgimento do preconceito e da discriminação. A condição social, a cor da pele, a idade, a nacionalidade, a opção política, religiosa e sexual, entre outras, são “razões” para que a rejeição ou a intolerância marquem sua presença entre semelhantes.
Semelhantes mas não iguais
A natureza nos criou diferente um dos outros não foi por acaso. Nossa impressão digital por exemplo, nos distingue como individualidades únicas no mundo. A nossa essência, ou seja, o espírito, também é uma identidade única e intransferível. E assim somos nós, semelhantes mas, não iguais.
A superficialidade de algumas questões, a banalidade pela vida, o excesso da busca para ser sempre o melhor e maior, têm contribuído para o aumento dos elementos da intolerância, pois estamos nos afastando dos elementos da tolerância (amor, paz, paciência e longanimidade). Esse afastamento e seus elementos nos tornou pessoas com julgamento mais aguçados consigo mesmo e com os outros, tornando-nos pessoas dissimuladoras de soberba. Viramos pessoas exclusivistas, individualistas, cheias de direito e quase nenhum dever. Culpar o governo ou os outros ou quase tudo que nos acontece tornam essas críticas cruéis, geram a intolerância e com ela os elementos que ela produz (ódio, raiva, o desejo de matar e a indiferença).
A lei de ouro do comportamento é a tolerância mútua, já que nunca pensamos todos da mesma maneira, já que nunca veremos senão uma parte da verdade sob ângulos diversos. (Mahatma Gandhi).
Como dizia Mahatma Gandhi : se você quer ver a mudança no mundo, comece essa mudança em si mesmo.
O amor nunca faz reclamações; dá sempre. O amor tolera; jamais irrita e nunca exerce vingança (Indira Gandhi)
A vida obriga a todos nós a conviver com as imperfeições e as indiferenças, e a sermos tolerantes com os que não pensam e agem como nós.
A tolerância tem como base o suportar e sustentar. É o quanto aguento uma situação ou pessoa. É ir ao limite de uma questão. É exercer a paciência, a paz a longanimidade e o amor. Ela representa o direito a que cada pessoa possui de ser aquilo que ela é e de continuar a sê-lo. Esse direito é expresso universalmente na regra de ouro: “Não faças ao outro o que não queres que façam a ti”.
A tolerância não é um dom, ou seja, a pessoa não nasce tolerante. É algo que temos que aprender. O seu aprendizado passa pelo exercício exaustivo do auto entendimento e autoconhecimento dos próprios limites, pois quando sei bem meus limites, tenho mais facilidade de exercer a tolerância. Quando desconheço meus limites, corro o risco de perder a tolerância.
“A tolerância é a maior das religiões” (Victor Hugo)
As pessoas mais tolerantes são as que buscam formas e possibilidades para converter os conflitos pessoais, sociais e intelectuais em situações confortantes para as partes envolvidas.
A tolerância é uma ferramenta para negociadores e pessoas que buscam viver de forma mais pacífica consigo mesmo e com o outro. É um tipo de lubrificante que colocamos quando as situações emperram e não conseguem prosseguir. Como se fosse uma engrenagem emperrada que precisa de um lubrificante para voltar a girar dentro da normalidade, e assim conseguirmos viver em paz e com harmonia.
Cada pessoa tem o direito de viver e conviver no planeta terra. Ele goza do direito de estar aqui com sua diferença específica em termos de visões do mundo, de crenças e de ideologias. Essa é a grande limitação das sociedades europeias: a dificuldade de aceitar o outro: seja árabe, muçulmano ou turco; e na sociedade brasileira, do afro-descendente, do nordestino e do indígena. As sociedades devem se organizar de tal maneira que todos possam, por direito, se sentir incluídos.
“A natureza nos oferece a melhor lição: por mais diversos que sejam os seres, todos convivem, introconectam e formam a complexidade do real e a esplêndida diversidade da vida”. (Leonardo Boff)
Conclusão
O fato de eu ter uma opinião contrária a sua não me torna melhor ou pior que você, apenas demonstra que pensamos diferentes. E até onde eu sei, são as discordâncias que fazem uma sociedade mais justa e igualitária.
Temos um longo caminho a percorrer na conquista do respeito e do direito à diferença. O preconceito e a discriminação mostra uma amarga realidade do Brasil a ser encerrada.
Conseguir respeitar de forma integral a escolha e o seu jeito de ser daqueles que estão ao nosso redor é, para nós brasileiros, uma grande dificuldade.
A educação assume um aspecto essencial de indivíduos conscientes quando se “goza” de uma educação que seja capaz de atuar frente às injustiças e desigualdades, reconhecendo-se como sujeito autônomo e, ademais, reconhecendo o outro com iguais direitos (Tavares, 2007 p.489).
Lidar de frente com a diversidade é essencial para que os indivíduos aprendam a se respeitar igualmente em diferenças. Uma mudança efetiva só se poderá ser visível após décadas de lutas a serem travadas cotidianamente contra o preconceito. Particularmente, quando se tratam de questões internalizadas culturalmente e socialmente durante gerações. Devemos seguir o exemplo do esforço calmo e contínuo das pequenas formigas que, em sua insignificância, constroem seus impérios e destroem as barreiras.
“Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm”. (Coríntios 10:23)
(*) Alda César de Andrade (Psicóloga)
