por Ronaldo Lundgren.
A internet é o nosso reflexo, e nós não gostamos do que vemos
Nós adoramos criticar as mídias sociais porque elas são um desconfortável espelho de nossa própria cultura.
Uma das promessas que nos foi feita quando do “nascimento” da Internet, era a de que esta seria o melhor veículo para transformar o mundo numa comunidade de cidadãos bem informados. Que ela abriria portas a uma sociedade mais tolerante e pacífica.
A promessa falhou. Mas a culpa não é da rede que realmente mudou o mundo – em muitos casos para melhor. Pelo contrário, são os humanos que a utilizam os responsáveis pelo aumento do ódio e da violência.
Nesses anos em que acompanhamos os extensos casos de corrupção, onde lideranças políticas estão sendo desmascaradas a cada dia, quando vemos xingamentos explodir por questões de cor da pele e da preferência sexual, a pergunta volta: a internet é um meio para o bem ou para o mal?
O Facebook está lotado de informações falsas e teorias da conspiração porque as pessoas adoram disseminá-las.
A missão do Facebook não é criar um mundo melhor. É apenas aumentar o mundo que já existe, facilitando a comunicação entre as pessoas. E essa comunicação inclui partes boas da vida – como convites para reuniões de amigos e fotos de familiares que não vemos há tempos – mas também coisas horríveis que são enviadas constantemente.
Precisamos de valores, urgentemente.
Para começar…
Numa época em que a realidade física se mistura com a virtual. Em que a Internet passou a fazer parte integrante do cotidiano de quase 4 bilhões de pessoas em todo o mundo. Vemos que não é exagero afirmar que esta sobreposição de universos se transformou num fenômeno de dimensões sem precedentes.
Passamos a assistir ao “mundo ao vivo e à cores”. Para o bem e para o mal, o acesso imediato ao que de real acontece às pessoas em diferentes partes do mundo implica reações igualmente imediatas. Muitas vezes desprovidas de contexto e de reflexão prévia, num misto de excesso de informação e de desinformação.
Através da Internet, estamos sendo constantemente intoxicados por imagens e comentários de violência. Assistimos a um ódio em crescimento. Este ódio é veiculado não só por terroristas especialistas na venda de propaganda, mas por aqueles que até nos são próximos, que pertencem à “nossa rede”.
Promessas que não foram cumpridas
“Vejo a Internet como a melhor das nossas esperanças… para que o mundo comece, finalmente, a transformar-se numa comunidade global e que todos se possam entender entre si” (Harley Hahn, escritor, filósofo, humorista e especialista em tecnologia)
É quase uma (ou várias) pergunta de um milhão de dólares: a Internet contribui mais para disseminar o bem ou o mal?
Foram alcançadas todas as promessas – otimistas – que, em meados da década de 90, previam que a rede das redes:
- contribuiria para criar uma comunidade de cidadãos “do mundo”, informados, interativos e tolerantes?
- que seria a Internet, através do seu enorme poder de comunicação e de geração de conhecimento, proveniente de inúmeras pessoas, oriundas de todos os países e culturas, que ofereceria o caminho para a paz?
- que um dos seus mais positivos impactos seria o declínio do “fundamentalismo”, dado que muitas crenças extremistas e irracionais seriam abertas e facilmente desacreditadas à medida que a capacidade dos internautas para pesquisar e encontrar a informação “verdadeira” e avaliar estas falsas verdades fosse melhorada?
- que a Internet seria a ferramenta por excelência para fomentar e preservar o respeito pelos direitos humanos e promover os processos democráticos, imprescindível para atingirmos uma progressão pacífica no sentido de um nível de civilização mais elevado?
Wishful thinking
Mais ou menos 20 anos passados sobre este “wishful thinking” ninguém pode negar que a Internet mudou, para melhor, inúmeros aspectos das nossas vidas. E se torna difícil imaginar a nossa existência sem ela.
Mas também todos sabemos que, enquanto espelho de uma sociedade crescentemente intolerante, violenta, disposta a promover pequenos e grandes ódios, a Internet não escapa a esta tendência. Ela é o veículo perfeito para disseminar o pior que existe nas pessoas que a utilizam.
Assistimos a níveis de violência crescentes. À profusão de discursos de ódio e intolerância. Ao aumento do racismo, dentro e fora de portas. E a uma generalização de raivas que são inflamadas até à exaustão nas redes sociais.
Se, na sua “infância”, o otimismo era reinante, o que deu errado? Quais fenômenos podem ser enumerados para responder a essa questão?
Em 2012, James Curran, o co-autor de um interessante livro intitulado “Misunderstanding the Internet” apontava para um conjunto de razões que podem ajudar a explicar este fracasso:
- a (ainda) desigualdade no acesso à web;
- o fato de a língua universal “falada” ser o inglês, o qual e de acordo com a Internet World Stats, é apenas compreendido por 26% dos usuários;
- o fato de o mundo estar/ser profundamente dividido em conflitos de interesse e de valores; e
- a persistência de regimes autoritários em que o discurso global é distorcido pela censura e intimidação levada a cabo pelos seus governantes.
Tudo isto adicionado ao fato de serem muitas as pessoas que passam mais tempo das suas vidas online do que offline.
Quem é o causador?
É possível afirmar que é a Internet que influencia, negativamente, a sociedade, ou que é esta última que determina o estado de intolerância e violência que temos assistido?
Existem evidências crescentes que o incitamento online ao ódio conduz à violência offline
Talvez a verdadeira resposta não interesse. O que interessa, sim, é o fato de olharmos em volta e, tanto no mundo virtual, como no real – os quais, cada vez mais, se intersectam – assistirmos a níveis de violência crescentes.
Vemos a profusão de discursos de ódio e intolerância. O aumento do racismo, dentro e fora de portas. Assistimos a uma generalização de ódios que são inflamados até à exaustão nas redes sociais, até serem facilmente substituídos por outros, na medida em que todos os dias existe um “tema por excelência”, em torno do qual se perdem horas a destilar-se fel, num sem número de likes e comentários inimagináveis.
Dilema do uso da rede
Como restringir os movimentos e discursos dos “maus”, ao mesmo tempo que mantemos as liberdades individuais, a democracia e os direitos humanos pelos quais continuamos a lutar continuamente?
Está havendo uso abusivo da Internet. Pessoas e grupos têm se valido da rede para disseminar “veneno”.
A liberdade de expressão é um direito humano, mas este direito não pode proteger discursos de ódio ilegais que incitem à violência e ao ódio
A indústria da Internet pode – e deve – ter um papel principal contra a radicalização e o incitamento à violência. Existem evidências crescentes que o incitamento online ao ódio conduz à violência offline.
Limitar e/ou erradicar este fenômeno consiste num exercício delicado, na medida em que exige uma definição clara, mas extremamente complexa, sobre onde acaba a liberdade de expressão e começa o discurso de ódio.
“A liberdade de expressão é um direito humano, mas este direito não pode proteger discursos de ódio ilegais que incitem à violência e ao ódio”.
A culpa não é da Internet
“A vossa guerra virtual na Internet causará uma guerra real que recairá em cima das vossas cabeças” [mensagem do Estado Islâmico aos responsáveis pelo Twitter]
O grupo terrorista Estado Islâmico tem declarado guerra ao Twitter. A cada conta fechada (o Twitter fecha todas as contas que consegue identificar como pertencentes ao grupo terrorista) uma nova ameaça é feita à empresa.
Muitos defendem que as grandes empresas de Internet, que administram essas redes sociais (Facebook, Google, Twitter, etc.), assumam a responsabilidade em filtrar o que pode ou não ser postado na rede.
A esse respeito, o presidente executivo da Google, Eric Schmidt publicou um artigo no The New York Times, tratando exatamente sobre bem e o mal veiculado pela Internet.
Para Schmidt, a Internet seria um mundo onde “qualquer pessoa, em qualquer lugar, poderia expressar as suas crenças, independentemente de quão singulares estas se afigurassem, sem medo de serem coagidos ao silêncio ou à conformidade“.
Todavia, no meio do artigo assinado pelo presidente da Google, o mesmo admite que ao permitir a veiculação das piores características da humanidade – sob a forma de inveja, opressão ou ódio – cabe aos líderes, sejam eles governamentais, da sociedade e das empresas de tecnologia, impedir que a Internet se transforme num veículo que reforce “o poder das pessoas erradas e das vozes erradas”.
No mesmo artigo, Schmidt defende a construção de “ferramentas” que ajudem a diminuir as tensões crescentes nas mídias sociais – “uma espécie de verificador ortográfico, mas para o ódio e para a intimidação”.
Como fica a liberdade de expressão
Porém, o que parece uma proposta para o bem, ela não é aceita com tranquilidade pelos defensores da liberdade de expressão na Internet.
Não porque defendam os assassinos do Estado Islâmico. Ou qualquer outro grupo de ódio. Mas porque este algoritmo defendido pelo presidente do Google se transformaria num “juiz” sem qualquer noção de perspectiva ou equilíbrio e moralmente ambíguo.
Tudo porque o tipo de sistema apresentado como uma possível solução para “limpar” o ódio na Internet, quando nas mãos de governos ou empresas de tecnologia poderosas, teria o poder de definir o que é “bom” ou “moralmente aceitável” e isso, sim, é um ataque à liberdade de expressão.
Seja no mundo virtual, seja no real, a crise de valores que há tanto tempo se instalou na sociedade, parece persistir e ganhar força constante
No mundo virtual, a Internet pode e deve também contribuir para acabar com o pânico e com o incitamento ao ódio. Para isto, basta ela apostar naquilo que constituem também os seus princípios por excelência:
- a criação de uma comunidade de cidadãos do mundo informados e tolerantes.
Mas isso só se alcança se os direitos humanos fundamentais continuarem a ser respeitados. E, em vez de censura produzida por algoritmos, há que conceber uma estratégia igualmente abrangente que privilegie a opinião de pessoas honestas e informadas.
Uma estratégia que aposte nos debates. Que possa produzir uma melhor compreensão das complexidades inerentes às lutas que hoje travamos. E que se esforce por combater a desinformação e uma nova torre de Babel em ruínas.
Considerações finais
A proposta deste artigo é convidar você à reflexão sobre os principais “males” que existem na Internet. Não há pretensão de oferecer respostas a problemas tão complexos.
A Internet pode ser um lugar horrível e viciante porque ela é reflexo das partes horrendas e viciantes de nosso próprio mundo. Mas a Internet também pode ser uma formidável ferramenta para o aprendizado e a conexão saudável das pessoas.
Não podemos esquecer que as redes sociais visam ao lucro. Elas vendem propaganda. Querem atrair sua atenção para fazerem dinheiro.
Estamos vivendo uma crise de valores. Seja no mundo virtual, seja no real, essa crise, que há tanto tempo se instalou na sociedade, parece persistir e ganhar força constante.
Valores como tolerância, respeito à diversidade e garantia dos direitos humanos são essenciais para uma vida saudável em sociedade.
Referências
Rob Howard. Autor de Hiatus.


