por Ronaldo Lundgren.
Está faltando liderança estratégica
A Fundação Getulio Vargas, no Rio de Janeiro, promoveu um debate sobre A Nova Estratégia de Desenvolvimento Nacional. Ela foi apresentada pelo Ministro Roberto Mangabeira Unger, da Secretaria de Assuntos Estratégicos.
É a segunda vez que Mangabeira Unger assume a Secretaria de Assuntos Estratégicos. Na primeira, em conjunto com o Ministério da Defesa, elaborou a Estratégia Nacional de Defesa.
Pode-se destacar da Estratégia Nacional de Defesa, depois de aprovada no Congresso Nacional, o fato de modificar a estrutura de comando do aparato de defesa do Brasil. A Estratégia também incentivou o fortalecimento da base industrial de defesa.
Quem é Mangabeira Unger
A despeito de ocupar o mesmo cargo público pela segunda vez, em um intervalo de seis anos, o ministro não é conhecido pela população brasileira. Quem é, afinal, Mangabeira Unger? O blog E-MANCIPAÇÃO tem a seguinte visão:
Não há como responder de imediato tal pergunta. De qualquer modo, é possível fazer algumas constatações que ajudam a entender por que tal pensador brasileiro não é escutado, lido ou estudado no seu próprio país.
A primeira delas é que a formação intelectual e atividade profissional de Roberto Mangabeira Unger se deu, quase que integralmente, na Faculdade de Direito da Universidade de Harvard. Em um ambiente acadêmico distante da intelectualidade brasileira.
A escrita apaixonada e esperançosa de Unger se contrapõe a seu semblante quase sempre tenso. Também, a uma dicção não muito clara e a um estilo de oratória de confronto, quase impositivo. Unger não é simpático e é visto como arrogante por muitos professores e acadêmicos.
Ao contrário das primeiras obras publicadas pelo pensador, não há citações ou menções expressas a ideias de autores clássicos da teoria social. Isto se dá justamente pelo grau de desenvolvimento da teoria ungeriana, que é própria.
O autor se afasta de correntes ou escolas filosóficas em razão da construção de uma teoria direcionada à imaginação institucional e aprofundamento da democracia.
A impossibilidade de enquadramento de Unger dentro de um determinado grupo de pensadores – tais como os “pós-modernos” franceses – aumenta a chance de repulsa entre potenciais leitores.
Esses leitores são marcados por uma espécie de dependência taxonômica. Ou seja, aqueles que têm uma compulsão por rotulações e definição de modos de pensar em categorias estanques.
Os principais pontos apresentados pelo ministro foram os seguintes:
| “O novo momento do país, que deve se voltar para a produção e a oferta, e não mais apenas para a demanda e o consumo.” |
| “Se faz necessário um choque de vanguardismo, para que o país conquiste produtividade, de fato.” |
| “Este vanguardismo se faz necessário não apenas em uma “ilha elitista”. |
| “O foco agora é a democratização da economia do lado da oferta e da produção, organizar um impulso produtivista no país. “ |
| “Esse impulso só interessará se for includente. Não adianta se for para beneficiar apenas uma minoria de endinheirados, ou mesmo de trabalhadores nos setores intensivos em capital.” |
| “Tem que ser para todos. E essa estratégia para todos exige inovações institucionais.” |
| “O ajuste fiscal sendo promovido pelo governo no Brasil é uma “ponte” para um novo modelo de desenvolvimento que se basearia em capacitação educacional e inovação.” |
| “…a forma contemporânea e social do pacto nacional desenvolvimentista é a seguinte: lá em cima as classes endinheiradas recebem o crédito subsidiado, por exemplo, do BNDES. E são credores da dívida pública e, portanto, beneficiários dos juros altos.” |
| “E lá embaixo as classes mais pobres recebem um benefício quantitativo muito menor no gasto social.” |
| “No meio, tanto a classe média tradicional quanto a classe média mestiça e morena não recebem nada, a não ser o acesso ao novo mercado de consumo em massa.” |
| “…no Brasil, há crédito subsidiado para uns 20 grandes empresários bem relacionados com o Estado brasileiro e financiadores das campanhas eleitorais. E mais caro para todos os outros.” |
| “Essa nova estratégia tem três vertentes: 1) a qualidade do ensino básico, que está ‘calamitosa’; 2) um produtivismo includente; e 3) propostas radicais para todas as regiões do país.” |
Os debates
Após a exposição do ministro, seguiu-se um período de debates, cujas observações deixaram a entender uma descrença na implementação da nova estratégia. A complexidade do Brasil e o descompasso entre a proposta apresentada e a legislação em vigor foram os contrapontos centrais.
O governo federal precisa encaminhar sua proposta de plano plurianual (PPA) para o período 2016-2019 ainda este ano. A nova estratégia estará incluída no PPA? Como obter o consenso para aprovação da estratégia em um Congresso que tem sua própria agenda?
Se já falta liderança política para definir um rumo para o Brasil, está faltando liderança estratégica para implementar qualquer medida.
Em síntese, foram expostas boas ideias. O momento político e econômico tornam difícil a formação de um consenso sobre o acerto das medidas propostas. Questionado sobre quando esse novo Brasil seria possível, o ministro esclareceu:
"Isso não é um amontado de ações tecnocráticas. Não é como construir uma usina e dizer: 'vamos terminar em tal data'. Não é isso. É lançar uma dinâmica transformadora. E o importante não é o prazo de terminar. Ninguém pode saber o prazo de terminar. Importante é o prazo de começar. É ter iniciativas que representem os primeiros passos da transformação."
