por Ronaldo Lundgren.
A arte de combinar chefia e liderança merece estudo e pesquisa daqueles que se interessam pelas relações sociais. Interessante encontrar trabalhos brasileiros que abordam tal assunto. Em alguns, como o de Wagner Estelita Campos, que foi editado conjuntamente pela Biblioteca do Exército e pela Fundação Getulio Vargas, chama a atenção a atualidade do diagnóstico apresentado sobre a falta de liderança no Brasil.
Falta de liderança no Brasil
O Brasil está vivendo, no momento, e mais que nunca, uma crise de liderança e isso em diversos ramos de atividade, em todas as esferas federativas e na área de todos os Poderes. Não no sentido, apenas, de que as posições de liderança estejam ocupadas sem a observância das formalidades cabíveis ou por pessoas que não sejam, em sua grande parte, capazes e honestas. Mas crise de liderança, sobretudo, no sentido da carência de líderes que não apenas dêem desincumbência normal às tarefas dos respectivos postos, mas que igualmente vivam e acima de tudo simbolizem os ideais e as aspirações dos diversos agrupamentos sociais. De líderes que de fato de um lado encarnem e de outro orientem o pensamento e a ação das coletividades.
Eis um ângulo do problema de que ainda não se convenceram ou para o qual ainda não atentaram muitos de nossos líderes ou pretendo líderes: o duplo dever sob um aspecto de captar e bem compreender não apenas os interesses mas principalmente os anseios da comunidade, e sob outro aspecto de quanto possível modelar esses anseios sob os imperativos dos diversos fatores da conjuntura nacional, vivificando-os e dando-lhes maior profundidade e objetividade, por força da visão de conjunto que os postos de chefia proporcionam e da experiência com que líderes ascendem a esses postos. Tudo sem falar na incapacidade em que se deixam envolver alguns de nossos líderes quando se defrontam com o papel de assegurar unidade aos grupos sob sua direção, em face da heterogeneidade natural com que os mesmos se constituem.
Fator crucial no problema tem sido o de que os líderes nem sempre reúnem um dos requisitos vitais para que possam simbolizar e, em consequência, orientar as aspirações e interesses coletivos: o do exemplo de uma conduta pessoal que se harmonize com as linhas fundamentais daqueles interesses e aspirações. Não se concebe, por exemplo, que um líder prevaricador inspire confiança num empreendimento de recuperação moral no serviço público, ou que um líder de vida ostensivamente opulenta se arvore em intérprete do sofrimento das massas, ou que um detentor notório de privilégios combata o privilégio, ou que um serviçal de interesses estrangeiros defenda os ideais de emancipação econômica do país, ou que um homem de mentalidade primária se queira erguer como o realizador do progresso e da cultura, ou que um garroteador sistemático das liberdades individuais e públicas pretenda ser o paladino da manutenção das mesmas. O resultado é que a liderança marcada por essa precariedade básica não inspira confiança, deforma as aspirações que pretende representar, frustra os ideias coletivos, perturba, de muitas formas, o processo normal da administração e do governo.
Torna-se necessário que os líderes se convençam de que os seus postos não encerram apenas vantagens, privilégios e regalias; representam, também, pesados ônus, o maior dos quais será certamente o de desempenhar, em toda a plenitude, a missão de liderança com toda a sua gama de atribuições, deveres, responsabilidades e encargos.
As atitudes dos líderes condicionam, em alto grau, as atitudes dos subordinados em todos os escalões da hierarquia.
Não se tenham essas considerações como expressão de uma crença na “teoria unilinear da causalidade social”, muito menos da convicção de que os líderes carismáticos representam a solução dos problemas sociais, até mesmo porque o Brasil tem sido vítima, em mais de uma oportunidade, da mística dos líderes. Mas queremos exprimir a convicção profunda – cada vez mais profunda – da tremenda influência que a atuação dos líderes e dirigentes representa no governo da coisa pública e particular, em seus diferentes níveis.
Todas essas considerações, se ressaltam a tremenda influência e a reconhecida importância do líder como símbolo, igualmente destacam a grave responsabilidade que os líderes assumem quando conseguem identificar, em sua pessoa, ideais e aspirações dos seus seguidores.
É preciso – e cada vez mais – que os nossos líderes em geral e os nossos homens públicos em particular – os que atualmente exercem funções de responsabilidade na vida do país e os que se preparam para exerce-las – atentem para a gravidade da nossa crise de liderança e autoridade, e se preparem para enfrentá-la.
Wagner Estelita Campos – advogado e professor, foi Deputado Federal pelo estado de Goiás, e Ministro do Tribunal de Contas da União. É autor do livro “Chefia, sua técnica e seus problemas“, publicado em 1947.
