Teoria da liderança servidora

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por Ronaldo Lundgren.

Teoria da liderança servidora

“The servant-leader is servant first…” (Robert Greenleaf)

teoria da liderança servidora

Depois DA MISSA das sete e meia, resolvi ir até o quarto para buscar um agasalho antes do café da manhã. Quando entrei, ouvi barulho no pequeno banheiro e por isso gritei: - Tudo bem, Lee?

- Não é Lee - veio a resposta. - Estou apenas tentando consertar o vazamento do vaso sanitário.

Meti a cabeça para dentro do banheiro e me deparei com um frade idoso, de quatro no chão, mexendo nos canos do vaso sanitário. Levantou-se vagarosamente e me vi frente a um homem no mínimo uns dez centímetros mais alto do que eu. Com um trapo, ele limpou a mão e a estendeu para mim. - Olá, sou o irmão Simeão. Prazer em conhecê-lo, John.

Era Len Hoffman, mais velho do que na foto da Internet, com o rosto enrugado, maçãs do rosto salientes, queixo e nariz proeminentes e cabelos brancos um pouco compridos.

Minha mão se sentiu pequena em sua mão enorme e poderosa, e eu abaixei os olhos para o chão, embaraçado. Ali estava uma lenda do mundo dos negócios, alguém que ganhava uma fortuna por ano no auge de sua carreira, consertando meu vaso sanitário! (trecho do livro O Monge e o Executivo)

Como conciliar a liderança com o “servir” a um grupo? A teoria da liderança servidora explica este estilo de liderar. Ela representa uma mudança radical no modo como um líder é percebido pelo grupo. Aquela figura de que tudo sabe para uma atitude de servir.

Sucesso em uma organização

Para uma organização ter sucesso, as pessoas precisam ter poder (empowerment). O bem-estar dos seguidores deve estar em primeiro lugar.  Esta é a base da liderança servidora.

A própria liderança servidora é um conceito paradoxal. Normalmente, as pessoas vêem os servidores e líderes como pessoas totalmente diferentes. É mesmo difícil conceituar um indivíduo como sendo ambos ao mesmo tempo.

A raiz desse tipo de liderança está fundamentada nos trabalhos de Robert Greenleaf. Segundo Greenleaf,

“O líder-servidor é primeiro servidor … Começa com o sentimento natural de alguém que quer servir. Com o tempo, esse indivíduo aspira assumir um papel de liderança. Essa pessoa é diferente de alguém que é líder e talvez,  por necessidade em atenuar seu poder, adota uma postura  mais voltada para os interesses dos colaboradores”.

De acordo com Greenleaf, os líderes servidores colocam seu serviço diante do interesse próprio. Ganham confiança por serem confiáveis. Ajudam os outros a se descobrirem. Ouvem ativamente os problemas do grupo, em vez de impor sua vontade aos outros.

Características de um líder servidor

Tem havido um interesse crescente na aceitação da teoria de liderança servidora proposta por Greenleaf. São dez as características identificadas de um líder servidor:

  • Escutar
  • Empatia
  • Recuperar
  • Consciência
  • Persuasão
  • Contextualização
  • Previsão
  • Assistência
  • Compromisso com o crescimento das pessoas
  • Criação de sentimento de comunidade

Liderança transformacional X Liderança servidora

Muitos pesquisadores argumentam que a liderança servidora é essencial para o sucesso organizacional.

Para os autores, a liderança servidora é mais eficaz do que a liderança transformacional em ambientes estáveis. Como exemplo, nas organizações religiosas, voluntárias e sem fins lucrativos.

Eles também argumentaram que a eficácia da liderança servidora é baseada no estágio do ciclo de vida da organização.

No estágio de maturidade, quando a preocupação com os funcionários e o crescimento pessoal é primordial, a liderança servidora é a forma mais eficaz de liderança.

A falta de liderança servidora criará um ambiente de trabalho disfuncional e improdutivo. Os pesquisadores Sen Sendjaya e James Sarros examinaram o fundamento filosófico da liderança servidora e sugeriram que os líderes servidores assumissem tanto o papel quanto a natureza de um servidor. Eles refutaram a afirmação de outros pesquisadores de que a liderança servidora não é ideal nas organizações, afirmando que ela existe e continuará a fazê-lo.

Críticas

Embora esse tipo de liderança tenha sido reconhecido na literatura, não há evidências empíricas suficientes que justifiquem sua validade.

O professor Gary Yukl argumenta que a maioria das evidências sobre o impacto da liderança servidora consiste em relatos e estudos de caso de líderes históricos. Segundo Peter Northouse, a maioria dos relatos é descritiva e não foi testada por metodologias qualitativas ou quantitativas de pesquisa.

Como resultado, os pesquisadores desenvolveram diferentes construções para definir a liderança servidora (por exemplo, Barbuto e Wheeler, 2006; Laub et al., 1999; Liden et al., 2008; e Page e Wong, 2000). Os numerosos construtos desenvolvidos são prova de que os pesquisadores conceitualizam e medem a liderança servidora de maneira diferente. Isto apenas aumenta a necessidade de uma abordagem uniforme para medir o fenômeno.

A eficácia da liderança servidora em todos os contextos tem gerado controvérsia entre os pesquisadores. Gill (2011) argumenta que as teorias de liderança servidora ignoram as muitas demandas que uma organização apresenta, especialmente nos negócios, onde o bem-estar e a satisfação dos stakeholders vêm antes dos interesses dos funcionários.

A liderança servidora também falha em explicar claramente como tal líder lidará com medidas drásticas, como redução de pessoal, que devem ser realizadas para melhorar a organização.

Considerações finais

Com organizações lidando com mudanças e turbulências, a liderança servidora pode não ser adequada em um contexto dinâmico. No entanto,  Russell e Stone (2002, p. 154) entendem que “a liderança servidora é um conceito que, potencialmente, muda organizações e sociedades, porque estimula a metamorfose pessoal e organizacional”.

Referências

Christian Harrison. Leadership Theory and Research: A Critical Approach to New and Existing Paradigms.

Autor: Ronaldo Lundgren

Possui graduação pela Academia Militar das Agulhas Negras; é Mestre em Estudos Estratégicos pelo US Army War College; e Doutor em Ciências Militares pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército.

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