Liderança na administração pública

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por Ronaldo Lundgren.liderança no serviço público

Liderança na administração pública

As livrarias estão abarrotadas de teorias sobre Liderança. Muitos textos são publicados e mesmo assim ainda não há uma compreensão simples e aceita sobre o assunto.

Não resta dúvida que o fenômeno “liderança” é fundamental para a prática da Administração.

A liderança foi se repensando à medida que a sociedade vivenciava transformações, nos seus mais diversos planos:

  • social;
  • tecnológico;
  • político;
  • econômico;
  • cultural;
  • ecológico; e
  • ético.

Apesar de dispormos de grande variedade de estudos relacionados à liderança, pouco se encontra a respeito da liderança dentro do serviço público.

Essa escassez de estudos talvez possa estar associada ao imaginário de que burocracias são movidas por forças que se encontram além do controle de líderes.

A temática da liderança no serviço público passa a ter maior importância. Afinal, as forças que atuam além do controle dos líderes, os impedindo de agir e tornando a administração rígida, tendem a diminuir.

Evolução da liderança

Ao realizar um breve resgate histórico sobre liderança, verifica-se que o início dos estudos científicos sobre o assunto aconteceu no século XX. Desde então, algumas teorias foram propostas.

A teoria do grande homem e a teoria de características embasaram todo o desenvolvimento teórico sobre o tema até a metade da década de 1940.

A primeira, fundamentada no pensamento aristotélico, defendia a ideia de que alguns seres humanos nascem líderes e outros para serem liderados.

Já a segunda, apresentava a ideia de que alguns indivíduos têm determinadas características ou traços de personalidade que lhes permitem serem melhores líderes que outros.

Essas teorias sofrem oposição nos dias de hoje. Acredita-se que a liderança é uma competência que pode ser desenvolvida.

As teorias que tratam de liderança em são grupadas em três grupos:

  1. Teoria de traços de personalidade;
  2. Teorias sobre estilos de liderança; e
  3. Teorias situacionais de liderança.

A Teoria dos Traços de Personalidade

Esta teoria distinguia o líder dos liderados por meio de características de personalidade (físicas ou habilidades cognitivas).

Um traço é uma qualidade ou característica distintiva da personalidade. Segundo essa teoria, o líder é aquele que possui alguns traços específicos de personalidade que o distinguem das demais pessoas. Pode ser um traço físico, intelectual, emocional ou cognitivo.

As teorias comportamentais de liderança

Elas surgiram com a Segunda Guerra Mundial. São as teorias que estudam os possíveis estilos de comportamento do líder em relação aos subordinados. Ou seja, as maneiras pelas quais orienta sua conduta.

Enquanto a abordagem dos traços se refere aquilo que o líder é, a abordagem dos estilos se refere aquilo que o líder faz. Assim, o líder seria predominantemente autocrático, liberal ou democrático.

As teorias situacionais de liderança

Elas argumentam que o líder deve agir conforme a situação se apresenta. Ele deve refletir se o caso necessita de uma posição mais autocrática, mais democrática ou até mesmo mais liberal.

Para os pressupostos da liderança situacional, não existe um estilo de liderança que possa ser considerado o melhor ou predominante, de forma a produzir sempre os melhores resultados, mas sim um estilo mais adequado para cada situação.

Administração Pública no Brasil

É possível identificar três momentos pelos quais passou a administração pública brasileira:

  • a Administração Patrimonialista, anterior a 1937;
  • a Administração Burocrática, entre 1937 e 1995; e
  • a Administração Gerencial, pós 1995 até o presente momento.

A evolução destes modelos foi gradual e não excludente, percebendo-se ainda hoje as três influências na Administração Pública.

Administração patrimonialista

Nesse tipo de administração o Estado era entendido como propriedade do rei.

O nepotismo e o empreguismo, senão a corrupção, eram a norma.

Esse tipo de administração revelar-se-á incompatível com o capitalismo industrial e as democracias parlamentares, que surgem no século XIX.

É essencial para o capitalismo a clara separação entre o Estado e o mercado. A democracia só pode existir quando a sociedade distingue-se do Estado ao mesmo tempo em que o controla.

Tornou-se assim necessário desenvolver um tipo de administração que partisse não apenas da clara distinção entre o público e o privado, mas também da separação entre o político e o administrador público.

Administração burocrática

Surge assim a administração burocrática moderna.

A administração burocrática, proposta por Weber, passou a ser, então, o modelo adotado, afinal era uma alternativa muito superior à administração patrimonialista.

O modelo burocrático trouxe grande evolução à administração pública brasileira, pois enfatizava os procedimentos e tinha como foco o controle das atividades, tentando desta forma extirpar os traços da administração patrimonialista do estado brasileiro.

A administração burocrática buscava introduzir no aparelho administrativo do país a centralização, a impessoalidade, a hierarquia, o sistema de mérito e a separação entre o público e o privado, visando constituir uma administração pública mais racional e eficiente.

No momento em que o pequeno Estado liberal do século XIX deu definitivamente lugar ao grande Estado social e econômico do século XX, verificou-se que a administração burocrática não garantia nem rapidez, nem boa qualidade, nem custo baixo para os serviços prestados ao público.

Na verdade, a administração burocrática era lenta, cara, autorreferida, pouco ou nada orientada para o atendimento das demandas dos cidadãos.

O reconhecimento de que a administração burocrática não mais correspondia às demandas que a sociedade apresentava aos governos impulsionou a busca por um novo modelo de administração.

Administração gerencial

Era necessário um novo modelo de administração para as organizações públicas. Daí, veio a administração gerencial a partir do aperfeiçoamento do modelo burocrático.

Este novo modelo baseia-se em um conjunto de novas iniciativas firmadas nos conceitos de eficiência, eficácia, produtividade, qualidade total, clientes, metas, resultados e parcerias.

A administração gerencial deve ser construída sobre a administração pública burocrática. Não se trata de exterminar de vez a administração burocrática, mas aproveitar suas conquistas e seus aspectos positivos.

A superação da administração burocrática e dos traços do patrimonialismo existentes no setor público foi obtida com a introdução da administração gerencial, contemplando:

  1. autonomia gerencial, com flexibilidade de gestão;
  2. alcance de resultados sob a ótica da eficiência, eficácia e efetividade, com a reorientação dos mecanismos de controle, no caso, de procedimentos para resultados;
  3. foco no cidadão, ao invés de autorreferida; e
  4. controle social, com a introdução de mecanismos e instrumentos que garantam a transparência e a publicidade da política e da ação governamental, assim como a participação e controle por parte do cidadão.

em direção ao setor privado

Sendo assim, podemos dizer que com o advento da administração gerencial, o setor público caminha para um estilo de gestão mais parecido com o do setor privado.

Os gestores e líderes das organizações públicas passam a não apenas controlar os processos existentes, mas também a buscar alcançar os resultados esperados com maior eficiência, eficácia e efetividade, levando sempre em consideração o cliente final, o cidadão.

Não se pode mais vislumbrar uma administração autorreferida, desatenta com os custos, sem enxergar a satisfação do usuário do serviço público.

Isso nos leva a discutir um dos principais fatores que impactam na busca pelo melhor resultado – as pessoas, ou seja, os servidores que executarão os serviços públicos.

A liderança no serviço público passa a ser assunto importante na administração pública gerencial. Afinal, a chave para melhorar o desempenho dos governos é a formação, desenvolvimento e manutenção de equipes de trabalho motivadas e comprometidas com as instituições. Ainda, comprometidas com as missões primordiais do Estado: prestar serviços de qualidade à população e induzir o crescimento econômico do país.

E é aí que vislumbramos o papel da liderança no serviço público.

Liderança na administração pública gerencial

Ao longo dos anos, instituem-se nas organizações públicas, políticas de governança baseadas em estruturas verticais e sólidas.

Isso fazia com que cada pessoa soubesse exatamente o que deveria fazer e quem eram as pessoas responsáveis por dar as ordens; a flexibilidade era muito baixa e os profissionais funcionavam como que em uma grande máquina, cuja velocidade de trabalho era ditada de cima para baixo.

Maior autonomia

Hoje, com a administração gerencial, as pessoas assumem maior autonomia e maior flexibilidade de gestão.

A verticalização deu espaço aos organogramas horizontais. Os resultados não são mais vistos apenas como fruto da somatória dos bons desempenhos pessoais, é preciso que toda uma equipe se motive e conquiste objetivos comuns.

A figura do profissional centralizado foi substituída pelos líderes, capazes de interagir com uma série de indivíduos, estimulando-os a obter os melhores resultados, da maneira mais colaborativa possível e ainda priorizando o autodesenvolvimento.

Administração pública X Administração corporativa

Um traço parece caracterizar a gestão pública brasileira contemporânea: a adoção de conceitos, discursos e práticas gerenciais típicas do mundo corporativo.

Criatividade, postura empreendedora, inovação gerencial, gestão por resultados, contratos de gestão, gestão por competências são alguns dos termos e expressões que, paulatinamente, aderem ao vocabulário cotidiano das diversas instâncias da gestão pública nacional.

Influenciadas pela disseminação de concepções neoliberais, calcadas nas noções de estado mínimo e gestão por resultados, as instituições públicas cada vez mais aparentam aderirem à lógica de mercado, concebendo o cidadão como cliente e adotando novas políticas e práticas de gestão, conforme disseminadas na esfera privada.

Nesse sentido, as organizações públicas se veem pressionadas a reverem suas estruturas e dinâmicas de funcionamento, a fim de otimizarem seus processos e rotinas, assegurando melhor desempenho e resultados mais efetivos.

Como resultante, a demanda por reformas no setor passa a se constituir como importante elemento da agenda política nacional, inserindo-se de forma sistemática nos discursos das lideranças e gestores públicos, que cada vez mais deveriam assumir um perfil empresarial e gerencial.

Administração gerencial e a liderança

Passamos então a relacionar a administração gerencial com os conceitos de liderança.

Os modelos de administração outrora aplicados dificultavam sobremaneira a influência do líder nas instituições.

Na administração patrimonialista

O bem público se confundia com o privado. Reinava o nepotismo e o empreguismo. Restava pouco ou quase nenhum espaço para aplicação dos conceitos relativos à liderança.

Na administração burocrática

Pouca liberdade se dava ao gestor. Os processos eram engessados e mecânicos, diminuindo a necessidade de líderes que levassem as instituições aos melhores resultados.

Na era da administração gerencial

A flexibilidade dos governos aumenta. Os gestores têm uma maior autonomia. Eles devem encontrar os melhores meios de atingir os resultados. Bem como atender ao cidadão de forma mais efetiva.

Assim, as teorias situacionais de liderança podem estabelecer uma relação mais forte com a administração gerencial, haja vista a convergência de suas características.

Tanto a administração gerencial quanto a liderança situacional são dinâmicas, flexíveis, autônomas, situacionais e voltadas ao resultado. Diferentemente das teorias de traços de personalidade e estilos de liderança, que têm conotação mais fixa, permanente e imutável.

Considerações finais

Este texto teve como foco evidenciar a crescente importância da liderança no serviço público brasileiro.

Apresentou-se a evolução dos pensamentos acerca da liderança e a evolução dos modelos de administração pública no Brasil. A liderança passou a ser peça fundamental para que as organizações públicas possam atingir os resultados esperados.

Foram identificadas as características da administração gerencial. Foi visto que os conceitos e estudos sobre liderança podem e devem ultrapassar a seara das corporações privadas e serem aplicados na esfera pública.

Referência(s)

Este post baseou-se no artigo de Daniel Cabral de Almeida – Liderança no setor público: algumas reflexões

Autor: Ronaldo Lundgren

Possui graduação pela Academia Militar das Agulhas Negras; é Mestre em Estudos Estratégicos pelo US Army War College; e Doutor em Ciências Militares pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército.

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