Desenvolva a disciplina

Share

por Maria de Lima. desenvolva a disciplina

Este artigo foi publicado na Revista Vencer! Ano III Nr 33, de Junho de 2002.


Você quer chegar ao topo? Então, desenvolva a disciplina. Seja qual for seu conceito de sucesso, você precisa dessa qualidade para vencer!

Basta janeiro se aproximar para que as pessoas comecem a idealizar metas para o ano novo. Prometem aprender uma língua estrangeira, fazer pós-graduação, gastar menos, adotar uma atividade física, deixar de fumar, trocar de emprego. Para muitas, no entanto, passam-se os anos e as promessas se repetem. Motivo: deixam de acrescentar a seus planos um item importante – a autodisciplina.

O que é disciplina

A disciplina, conforme definiu William Bennett no Livro das virtudes, pressupõe responsabilidade, consciência, autocontrole. Como a palavra indica, disciplinar-se, segundo o autor, é tornar-se discípulo de si mesmo.

É treinar a si mesmo, tornar-se o próprio professor, o próprio mentor. Bennett acredita que muitas das infelicidades do mundo e das angústias pessoais devem-se ao fracasso em controlar o temperamento, as paixões, os impulsos, o apetite. Ou seja, são atribuídas à falta de força de vontade, à falta de disciplina.

Você pode adiar seu curso de pós-graduação por tempo indeterminado – e ficar livre nos fins de semana para sair com os amigos. Pode esperar a aposentadoria chegar para dar mais atenção a sua família. Mas pode encontrar um jeito de conciliar essas coisas agora. A questão é: quais dessas decisões terão maior impacto em seu bem estar geral daqui a cinco, dez, 20 anos?

O médico psiquiatra e consultor Tom Chung, da Consultoria PC&A, afirma que a autodisciplina tem tudo a ver com o caráter, cujos valores incluem integridade, responsabilidade, visão, capacidade de definir e realizar objetivos. Disciplina, para ele, é uma força moral que leva o indivíduo a fazer o que tem que ser feito, independentemente da própria vontade e da emoção.

Comprometa-se com você

Você tem uma visão sobre o que pretende realizar, define o que precisa fazer para conseguir seu objetivo, assume o compromisso com sua causa e simplesmente faz. Isso é agir com disciplina. Comportamento que, na opinião do psiquiatra, é resultado da formação do caráter. Prometer e não cumprir, segundo Chung, é corromper a própria integridade.

A consultora Dulce Magalhães, doutora em planejamento de carreira cuja tese de pós-doutorado é justamente sobre disciplina, afirma que se disciplinar é ser capaz de “colocar inteligência na própria energia”. Com outras palavras da própria consultora, significa direcionar as ações de forma consciente e com propósitos claros.

“Diferentemente do que muita gente pensa, disciplina não é um regime rígido que exige sofrimento para mantê-lo”, diz. “É ser capaz de mudar o comportamento quantas vezes forem necessárias para atingir propósitos.”

É a capacidade de educar a própria vontade a fim de resistir a uma tentação imediata, em prol de um objetivo mais distante, porém muito mais valioso. Essa é a definição do consultor e especialista em gestão por resultados Hamilton Bueno, diretor da International Leader Center (ILC).

A disciplina ajuda a pessoa a concentrar-se em seu foco e a adotar pequenos ‘nãos’ para obter um grande ‘sim’, diz.

Já a conselheira de carreira americana Laura Fortgang, autora do livro Take yourself to the top (sem tradução para o português), acredita que desenvolver a disciplina é colocar-se em primeiro lugar. “Se você não consegue se disciplinar para economizar dinheiro, talvez pense que não merece o esforço. Se você não consegue fazer ginástica porque não tem tempo, você está admitindo que não merece o tempo destinado à atividade. Se você não consegue desligar a TV para fazer algo produtivo, está declarando que não merece isso.”

Disciplina não é castigo

Embora a disciplina implique em abrir mão de uma situação de conforto imediato em troca de uma recompensa mais duradoura no futuro, os consultores afirmam que não pode ser confundida com punição ou adoção de motos extremos, como já observou Dulce.

“Se você sofre para fazer algo, mas faz com muito empenho porque acredita que isso é disciplina, vai perceber que não é possível manter um sofrimento pela vida afora”, afirma a consultora.

Ela explica que gestão de vida é muito mais do que um mecanismo repetitivo – que até os animais podem aprender. “Tem de ser um processo quântico, tem de estar dentro de nossa mente e de nosso coração”, diz.

Por isso, se você não gosta de acordar cedo, nada garante que, pela repetição, irá tornar esse hábito natural em sua rotina. E não há nada de errado nisso. Você pode encontrar uma saída para conseguir o resultado desejado – como, por exemplo, dormir mais tarde ou administrar melhor seu tempo durante o dia.

Também não é remédio para tudo

Tom Chung lembra que a disciplina não é um remédio para todos os males. E alerta que controlar tudo é um exagero, que pode levar à rigidez burocrática e até à tirania. Conforme o consultor, a autodisciplina envolve vários níveis do ser humano, como inteligência lógica, emocional, interpessoal, espiritual.

A disciplina está diretamente associada à responsabilidade, motivo por que exige bom senso para compreender quando ela é essencial, quando ela é efetiva e quando ela é inconveniente.

Como afirmou a consultora Laura Fortgang no livro mencionado anteriormente, a disciplina “é um amigo generoso“, mas somente quando é usada para dar suporte ao indivíduo a fim de que atinja suas metas.

Ela salienta que, quando a disciplina se torna um castigo, obtém-se o oposto do pretendido. Para ser efetiva, portanto, terá de ser movida pela força de vontade, deve sustentar-se numa perspectiva maior, que esteja amparada pelos valores intrínsecos do indivíduo.

Nesse aspecto, a disciplina está ligada também ao conceito de eficácia pessoal de Stephen Covey, que aconselhou: “Assuma pequenos compromissos e seja fiel a eles. Seja um guia, não um juiz. Seja um modelo, não um crítico. Seja parte da solução, não parte do problema”.


Você já sabe o que é disciplina e que ela exige um preço. Mas qual será sua maior recompensa em tornar-se disciplinado?

“É a conquista de todos os propósitos que você pretende para a vida”, responde Dulce. E a consultora destaca que a energia usada em ambas as escolhas – agir com ou sem disciplina – é praticamente a mesma, os resultados serão completamente diferentes.


Como sair do discurso?

Se você ainda não adquiriu o hábito de cumprir suas promessas, saiba que pode virar o jogo. Inicialmente, Dulce propõe uma reflexão. Ela sugere que descubra por que não persiste, quais as razões o impedem de conquistar seus objetivos, onde se encontram as barreiras. “Vá mudando um a um, parte por parte”, ensina ela, “até estabelecer uma nova visão. Isso é a decisão e você terá a disciplina para fazer acontecer.”

Digamos que você saiba exatamente o que deseja e tem uma crença profunda em seu objetivo. A próxima ação, sugerida por Hamilton Bueno, é criar um plano de ação por escrito, com acompanhamento passo a passo.

Depois, propõe o consultor, você deve procurar um mentor, alguém que o ajude a fazer o acompanhamento. “É muito importante começar com uma pequena ação que reforce o comportamento esperado“, diz Hamilton. “Comece com uma pequena meta que faça parte de um grande objetivo”, ensina ele.

Comece já!

O consultor enumera alguns exemplos: deixar de parar na faixa de pedestre, comer apenas uma fatia de torta – em vez de comer a torta inteira -, ler seus e-mails até três vezes ao dia, em vez de dez. Ele sugere ainda que você crie um visual, um desenho ou outra imagem que o ajude a se ver colhendo os benefícios da conquista de seu objetivo.

Seguindo essa linha de raciocínio, Tom Chung sugere que você comece desdobrando a visão. Alguém que deseja perder 10 quilos não deve estabelecer um objetivo grande de curto prazo. Pode começar com a meta de perder 1 quilo a cada cinco meses.

O ponto crucial é definir um prazo e dar o primeiro passo. “Alguma coisa tem de ser feita 24 horas após a decisão“, ensina.

Ele dá mais um exemplo: digamos que você resolveu fazer um curso de inglês. Terá de decidir quando irá começar e, mesmo que tenha definido o início para daqui a três meses, terá de fazer alguma coisa para concretizar seu objetivo. Pode descobrir quais as escolas mais próximas de seu trabalho ou de sua residência ou fazer uma cotação para comparar os preços. “A mente favorece ação após ação”, informa Chung.

Por fim, o consultor diz que é preciso ter fé – o que ele chama de inteligência espiritual. Fé que, segundo ele, está além das crenças religiosas. Ter fé imbatível em você, em seu poder de transformar sua realidade. Fé em seu objetivo e nos benefícios que ele proporcionará tanto para você quanto para outras pessoas.

Aproveite e confira 8 passos de disciplina que vão tornar você mais admirado.

Autor: Ronaldo Lundgren

Possui graduação pela Academia Militar das Agulhas Negras; é Mestre em Estudos Estratégicos pelo US Army War College; e Doutor em Ciências Militares pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército.

Deixe uma resposta